Há coisa de 3 semanas atingimos o nível máximo da hipocrisia no futebol português. A partir daqui, ou caminhamos para a limpeza da escumalha e regeneramos este futebol com pessoas novas, independência das estruturas e métodos diferentes ou então fica tudo como está. Obviamente que esta ideia é meramente retórica pois sabemos bem como isto vai continuar. A urgência deste pensamento é algo que não assiste quem lidera o futebol. Portanto, não se aplica ao sujeito em questão nem ao parceiro com o qual trabalha em regime de exclusividade, como veremos de seguida.

A razão disto é fácil de adivinhar: a “grande” entrevista do Fernando Gomes no jornal abola, entrevista essa que nem fui capaz de ler até ao fim para não tirar o almoço cá para fora.

Numa coisa há que louvar Fernando Gomes: a sua coerência. Toda a gente sabe que na altura em que subitamente se lembrou que o seu desígnio de vida era a salvação do futebol português, tinha acabado de ser escorraçado do seu ex-clube do coração tendo sido apanhado em escutas do Apito Dourado. A limpeza da sua imagem foi feita à custa da venda da alma aos na altura, paladinos da verdade desportiva e frente assumida anti-sistema do regime que perdurou mais de 30 anos. E se há coisa em que Fernando Gomes é coerente é a sua capacidade e tendência de se aliar a quem corrompe (passando, pois, a ser o corrompido). Uma vez mais e, à semelhança do que tinha acontecido no Porto, foi isso que aconteceu.

O Primeiro-Ministro (não, não é o Costa), esperto que nem um alho, viu logo o ás de espadas que ali estava, prontinho para a subserviência em troca de uma carreira ao mais alto nível. O facto de ter saído do Porto em litígio foi só a cereja no topo do bolo. Daí até à eleição como Presidente da FPF foi um tiro.

Tudo o que veio a seguir foi apenas a consequência da parceria velada entre o Benfica e Fernando Gomes, parceria essa que sempre foi clara para quem anda atento: Um entregava o Conselho de Arbitragem de bandeja e o outro promovia, à custa da CS cujo controlo é detido por si, a subida vertiginosa na FPF e na Uefa (com o patrocínio de Jorge Mendes). Ganharam ambos. Hoje o Benfica é treta campeão e o Fernando Gomes ganhou reputação lá fora a ponto de hoje ser considerado para altos cargos institucionais.

No meio deste processo houve mortos e feridos. O primeiro e principal morto foi o futebol português. Vindo de um Apito Dourado mal resolvido, exigia-se uma limpeza. E a resposta do “futebol português” foi Fernando Gomes, um dos envolvidos no processo. Com uma equipa composta por mais lampiões de gema do que o 11 do Benfica, foi o principal responsável pela pornografia nas nomeações dos árbitros e observadores. Sim, porque para quem não sabe, a arbitragem está sob alçada da FPF, através do Conselho de Arbitragem e de Justiça. E o Presidente da Liga é Vice da FPF. Isto, só para desmistificar a “distância” de Fernando Gomes do “clima” que ele hoje critica. Mas não foi só na arbitragem que ele interferiu (ou fechou os olhos para que um clube interferisse).

Qual foi o primeiro grande desafio? Centralização dos direitos televisivos. Uma ideia que nasceu tão depressa como morreu. Quem é que fez o que quis? Benfica. Quem é que permitiu que o processo morresse? Fernando Gomes. O resultado é aquilo que vemos, com um campeonato totalmente nivelado por baixo porque 95% dos clubes dependem da boa-vontade dos outros 5% em vez de serem autónomos e crescerem com receitas próprias provenientes da centralização dos direitos.

Muitos outros desafios se seguiram, sempre com o mesmo resultado. Os mais recentes tiveram a ver com duas situações que, curiosamente ou não envolveram, uma vez mais, o grande parceiro de Fernando Gomes, o Benfica. Primeiro, a morte de um adepto (ao qual já tinha sido precedido por envio de tochas em plena bancada de Alvalade depois de uma tarja inqualificável no jogo de futsal) e, depois, o caso dos e-mails denunciado pelo Porto. Estamos a falar de duas situações das mais graves que podem acontecer num mandato de um presidente de uma federação desportiva: morte de um adepto e suspeitas fundamentadas de corrupção. A resposta de FG a ambas foi sintomática: Tardia ou inexistente. Sempre em benefício dos visados.

E eis que, finalmente, resolveu aparecer em cena. Numa entrevista tão ridícula, mas tão ridícula que se confundiu com o comunicado feito pelo Benfica semanas antes. A falar do clima, do ódio e, como não podia deixar de ser, do discurso de dirigente(s). Só faltou dizer que a culpa é do Presidente do Sporting. Vontade não lhe deve ter faltado.

Vamos por partes: existe um ódio desmesurado? Mais ou menos. Existe ódio, sem dúvida! Desmesurado não porque é totalmente justificado. Fernando Gomes esqueceu-se das consequências da sua parceria. Esqueceu-se que para agradar quem tinha poder na altura, teve de estigmatizar quem nunca o teve e quem o perdeu. Só isto é razão suficiente para o ódio. Então se juntarmos a isso uma série de “ocorrências” que permitiram o parceiro Benfica dominar a seu bel-prazer, creio que ódio até é redutor para classificar aquilo que todos os não-lampiões sentiram e sentem durante este período. Como por exemplo, um ano inteiro sem ver o rival sem um jogador expulso e ou penaltys contra. Ou a impunidade na violência dos jogadores (sobre isto, há exemplos todas as jornadas). Ou a expulsão de árbitros fora da esfera de controlo do parceiro (Marco Ferreira) ou o compactuar com o “trabalho” dos observadores. E agora, a novidade, o critério geral dos árbitros que controlam o VAR em todos os estádios e o “critério específico” no estádio do parceiro. E, já que falamos em VAR, a VARGONHA ABSOLUTA que é permitir que um clube possa transmitir os jogos em que participa e manipular os lances polémicos como aconteceu contra o Braga e Portimonense.

Portanto, estamos a falar de um período em que o Benfica viu poucas ou nenhumas decisões institucionais a irem contra os seus intentos a juntar um período de domínio interno em termos de resultados. Quem sabe somar 1 + 1 nem precisava de ter lido isto tudo porque a verdade é que existe relação CAUSA-EFEITO e ela entra-nos pelos olhos adentro. Claro que podemos todos acreditar que o Benfica foi, durante 4 anos seguidos, sempre mais competente que os rivais. Nada contra esta ideia…a não ser o facto de ser falsa, à excepção de uma ou no máximo duas épocas. Nem vale a pena fazer grandes análises, se pegarmos, por exemplo, no registo disciplinar (faltas+cartões) dos 3 grandes nestes 4 anos, as diferenças são tão abismais que facilmente se percebe que alguma coisa não está certa. E podia continuar com inúmeros casos de dualidade de critérios seja dentro de campo como fora dele.

Felizmente, existe Europa para deixar a nú todas estas incongruências. Uma equipa que “domina” internamente não leva 5 do Basileia, 4 do Dortmund e outros tantos do Nápoles assim como o “eterno incompetente” cá do burgo não fica a segundos de pontuar em Madrid, nem faz as exibições que fez contra Dortmund e Barcelona. O que é que isto nos diz? Que as diferenças de qualidade entre os 3 principais clubes portugueses não são assim tão grandes como o histórico de títulos internos dos últimos 4 anos demonstra. Que, trocando por miúdos, significa que há algum fenómeno exclusivo ao rectângulo que tem o condão de aumentar essa distância no que aos resultados diz respeito. Vocês sabem do que eu estou a falar.

Para terminar, já devo ter escrito tantos textos sobre isto que seria mais fácil apenas pegar no primeiro e actualizar com factos recentes. Que, neste caso, não foi mais do que o FG vir a terreiro amparar a queda do parceiro. Um aviso à navegação (leia-se, árbitros e CA) para “estancar” a hemorragia. Temo pelo que aí vem.

 

ESTE POST É DA AUTORIA DE…  Sá 
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