Na noite em que atenções e corações se dividiram entre Santa Maria da Feira e o Pavilhão João Rocha, o Sporting carimbou a passagem às meias finais da Taça de Portugal e aos quatros da CEV Cup. E esta é uma crónica que ameaça contraria Paulo Bento na teoria de que pé e mão não podem ser tudo a mesma coisa

festa-feirense

Ontem à noite o Sporting foi um Hummer. Às listas verdes e brancas, Rampante a ocupar todo o capot e o motor a rugir como um Leão. E fez o que um Hummer faz: passou a ferro quem lhe apareceu pela frente, mesmo que no caso do futebol tivessem ficado por marcar uma mão cheia de golos que, a serem concretizados, teriam feito o Nuno meter-se nas mantas calado, caladinho, como o treinador dos turcos que cedo perceberam que a sua vitória por 3-0, há 15 dias, era meio caminho andado para terem que enfrentar um Sporting furioso e pronto a dar-lhes uma sapatada… com a mão.

Quite a heartbeat (Shine like million)
Your quite a heartbeat (Shine like million)

Com o pé não era diferente. O Leão queria voltar a espreguiçar-se, depois da estúpida derrota em Tondela e do empate de sabor esquisito frente ao fcPorto, e atirou-se aos rapazes de Santa Maria da Feira como o Ali Gazal se atira às penas dos adversários. A diferença, claro está, é que o Sporting joga à bola e o Ali Gazal dá porrada durante uns 70 minutos e não chega a ver um amarelo. Mas viu, logo a abrir, que seria pela esquerda que a coisa ia complicar-se para as suas cores.

Acuña mostrava que as idas ao psicólogo o estão a transformar noutra pessoa, quase como se Conan, o Rapaz do Futuro, fosse reeducado pela tia do Tom Sawyer e casasse com uma instrutora de Yoga, e desde cedo tomou conta da ala canhota, tanto a defender como a atacar. Desse lado, também, ensaiava Nani o primeiro remate à baliza e seria do pé esquerdo de Raphinha, lançado de forma preciosa por Coates, que quase nasceria o primeiro golo do Sporting. Depois seria Wendel, a rematar da entrada da área, e tudo isto em apenas oito minutos de jogo, nos quais o Sporting ainda conquistou três cantos e me começou a enervar com essa mania de não os devidamente aproveitar.

Por essa altura, o Voleibol virava o segundo set, frente ao Ankara, de 16-17 para 20-18 e partia para a conquista do 2-0 mais ou menos à mesma altura em que o Feirense chegava pela primeira vez à área leonina e os adeptos do Feirense se divertiam a enviar petardos a Salin (onde isto já chegou). Raphinha puxava magia com um toque de calcanhar que enganava dois adversários e o nosso bem conhecido Fábio Veríssimo anulava um golo limpo a Bas Dost, considerando que o holandês se apoiou num defesa adversário para marcar na sequência de um canto.

Permitam-me um parágrafo para vos dizer que este golo anulado foi dos mais ridículos golos anulados de que me recordo e que dava jeito um árbitro perceber o que é apoiar-se para ganhar impulsão e o que é apoiar-se já no movimento descendente, depois de ter saltado mais alto no meio de três defesas.

Do outro lado, também num canto, a defesa do Sporting adormecia. Mas de propósito, claro, preocupados com o frio que Salin estava a apanhar e obrigando-o a uma saída aos pés do filho de um gajo que foi craque e que se chamava El Trem, enquanto os adeptos verde e brancos festejavam o 3-0 no Voleibol, que dava acesso ao golden set. E só não festejaram mais porque o tal do Brígido, o redes do Feirense, defendeu a bomba de Bruno Fernandes e, logo a seguir, defendeu a recarga de Bas Dost, só parando para descansar quando a cabeçada de Coates lhe foi parar às mãos.

A propósito de mãos, enquanto a equipa de futebol recolhia aos balneários com a azia do 0-0, no João Rocha celebrava-se o 15-10 e uma incrível remontada para mais tarde recordar, nomeadamente pelos 363 adeptos (alguns das claques Diretivo, Torcida e Brigada) que fizeram eco das palavras do mister Hugo Silva: «este jogo e esta equipa mereciam um Pavilhão cheio».

Cheio de ganas voltou a vir o Sporting, nomeadamente o Acuña, que ia tendo um AVC quando viu o Dost falhar um golo a um metro e meio da linha de golo, sem redes na baliza. Depois é Nani, de cabeça, a fazer a bola passar pertíssimo da barra. E o mesmo Nani, de primeira, cheio de classe, a fazê-la passar rente ao poste. Golos e mais golos falhados, quase a lembrar o desperdício de Tondela que acabou como bem nos recordamos.

Mas, ontem, pese o desperdício, a equipa jogava à bola. Pressionava alto, ganhava bolas, envolvia-se e tinha um Wendel a abrir o livro na arte de jogar entre linhas e alternando as vezes que fossem necessárias de posição com o Nani. E foi assim, vindo da esquerda para o meio, que o 37 fez o que quis dos adversário e disparou uma bomba colocada para fazermos a festa. Bruno Fernandes não lhe quis ficar atrás e, logo depois, aproveitou uma bola de ressaca e imitou o que Marshall havia feito no Voleibol. Pumba! 2-0.

E só não foi três porque, numa das mais belas jogadas de toda a partida, o estreante Luiz Phellype viu o poste negar-lhe uma estreia tão perfeita como promissora, onde ficámos com a certeza que este rapaz nos oferece novas soluções lá na frente. Atrás, no centro da defesa, Coates inventava para depois fazer três incríveis cortes seguidos e obrigar Salin a uma belíssima defesa, dando o mote para 10 minutos finais onde a cabeça da equipa parecia estar já no buffet de grandes jogo que se avizinha.

Muitos deles em casa, em todas as modalidades e mais algumas, porque o Sporting é pé e é mão e para ser um Hummer precisa de coração. De quem joga e de quem apoia.

Quite a heartbeat (Shine like million)
Your quite a heartbeat (Shine like million)
Race right through you (Shine like million)
You sleep like small stars fly back home