Em primeiro lugar, porquê agora? Esta é fácil, porque, mesmo ganhando as Taças a realidade diz que estamos há mais de 10 jogos sem ganhar um jogo. E isso até podia ser circunstancial, pois apanhámos um final de época fechado em objectivos possíveis, tivemos uma final que é um jogo que pode sempre ir a prolongamento e penaltys e uma pré-época onde até se poderia perder os jogos mas vendo um caminho claro para onde vamos. Mas não é nada disso que estamos a falar. O que estamos a ver são sintomas de algo mais abrangente, para mim. Estrutural.

O futebol do Sporting é uma amálgama de equívocos e confusões a começar na estrutura e a acabar no treinador. E o problema, na minha opinião, não está (só) no treinador. Keizer é o treinador adequado para ganhar títulos, leia-se, campeonatos na realidade portuguesa? Não. Mas poderia ser um treinador que implementasse um certo estilo de futebol, atractivo, e que nos aproximasse desse objectivo? Se calhar….se tivesse tido a mínima hipótese.

Antes de choverem os calhaus, ponham-se no lugar de um treinador com o currículo de Marcel Keizer, acabado de chegar a um país novo, sem falar a língua, com um plantel que não conhece e com o objectivo de colocar uma equipa rapidamente a jogar bem e a ganhar jogos. Já é suficientemente difícil? Agora, imaginem que todas as decisões de recrutamento não passam por ele. Atenção, abro aqui um parêntisis para ressalvar que muito que vão ler de seguida é completamente hipotético. Continuando, abre a janela de Janeiro e vem um médio de um clube russo que nem sei dizer o nome, um central a jogar no Championship, um lateral a jogar nas Américas e um ponta de lança da segunda liga portuguesa. Que, naturalmente, não conheço. Portanto, ainda estou eu a perceber com o que posso contar dos que já cá estão e acabei de conhecer e contratam mais 4. Quando a minha realidade há uns meses era o Al-Jazeera ou, no limite, o campeonato holandês. A somar a isso, nada do que peço (se é que pedi ou tenho sequer liberdade para pedir) é satisfeito. O que pensaria qualquer treinador? Que está aqui o enredo perfeito para o próximo filme da saga Missão Impossível. Mas como até sou um tipo razoável, vou esperar e ver o que a próxima época me traz. Até ganhei 2 taças, que diabo! Ok. Vamos ver se na próxima janela, com pré-época, isto muda. E não muda, piora. Contrata-se mais uns quantos e um suposto “grande reforço” que não é nem 10 nem PL mas que, por já ter alguma reputação tem de jogar, apesar de ser claro que não pode jogar em 4-3-3, o meu sistema favorito e em vigor desde a época anterior. A somar a isto, não despacham quem não tem qualidade e poderia diminuir o plantel e abrir espaço para mais e melhor competitividade e, para rematar, um ou outro que até nem é nada de se deitar fora e até podia ter planos para ele é dispensado. E agora, vai treinar!

Agora, é a parte em que me dizem que ele assinou um contrato e se o fez, agora não se pode queixar. A questão é mesmo essa. Será que ele assinou sabendo que teria input zero nas contratações? Que existe um departamento de scouting que poderá ter um perfil de jogador (e Raul José tem-no de certeza) que aponta jogadores para as suas necessidadese e o treinador apenas recebe-os e faz magia? Será que o perfil de jogador, por exemplo, de 6 de Raul José e o de Marcel Keizer é o mesmo? Priveligiam ambos as mesmas características? Será que falam um com o outro, sequer? E será que ambos têm o mesmo poder de influência na decisão final da estrutura? O melhor é parar de fazer perguntas difíceis. Quando eu digo que Keizer é um boneco, nem sequer é em tom ofensivo ou depreciativo, é porque ele veio mesmo para este papel. Só não sei é se ele sabia que ia ser boneco ou se foi-lhe dada alguma expectativa de que iria ter o mínimo de poder e autoridade para influenciar algumas decisões que impactem directamente no objectivo de jogar bem e ganhar. Agora dizem-me: “Ah! Então que se demita!” Para quê? Faço o que gosto, não me pagam mal e vou sempre tentar por as minhas equipas a jogar bom futebol, seja com o que me dão ou o que peço. Se não tenho condições/liberdade/autoridade para mais e se é a minha cabeça que vai rolar primeiro…e faz muito bem pois não é ele que tem de pagar por erros estruturais. Para ele, claro.

Há uma coisa que eu já tenho a certeza. Da mesma forma que BdC deixou de ter projecto para o 2 mandato e passou a viver ao sabor dos acontecimentos, Varandas nunca o teve e agora está/vai fazer exactamente o mesmo. A diferença é só uma: no ano passado ganhou, e isso segurou as pontas, este ano está à vista e ainda estamos a começar. Esta estrutura quis fazer exactamente o oposto do que existia. E o que é o oposto de JJ? É o tal boneco. E isto até nem seria completamente mau…se as “instruções” que teria de seguir estivessem em linha com uma política de aposta na formação e aquisições cirúrgicas de qualidade tão repetida em campanha. Seria “escrever direito por linhas tortas” e, pessoalmente, até duvido que Keizer boicotasse esse caminho. Mas não. Entre despejarem mais jogadores, não se livrarem de outros e livrarem-se daqueles que iam ao encontro dessa ideia e que o treinador até gostava (visível em Matheus) foi a estrutura que minou qualquer hipótese de, pelo menos, colocar a equipa a jogar o futebol que o treinador quer jogar e segundo as suas ideias. Porque, ao contrário de JJ, desta vez MK só treina e a responsabilidade dele começa e acaba aí. E até porque não há uma contratação que se diga de caras que tem o dedo do treinador.

Isto tudo já é mau? Calma. Olhemos mais à frente. Já todos percebemos que, neste cenário, MK está a prazo e é só uma questão de saber quando é que sairá. Quem virá? Falhando neste treinador, que se fará? Mesmo perfil com outro nome? Muda-se o perfil? E esse perfil adequa-se ao paradigma “estrutura gere e o treinador treina”? Muda-se o paradigma? Quantos treinadores com algum currículo e que galvanizem os adeptos aceitam trabalhar nestas condições? Só um tuga cá do burgo. Portanto, ou alteram profundamente um dos pilares do projecto ou as brechas ficam à vista. Isto significa que esta estrutura com ou sem este treinador não pode ter sucesso? Não sei, se calhar a sobrevivência até os vai levar para um caminho melhor aceite pelos adeptos e que lhes garanta continuidade. Até poderão trazer uma ou duas trutas agora ou em Dezembro e a coisa ficar composta o suficiente para lutarmos pelo título e até ganhar alguma coisa. Mas para lutar pelo título de forma sistemática e ser campeão de forma minimamente regular é curto pois a falha é estrutural e vai-se manifestar sempre, seja com este ou outro treinador dentro do mesmo perfil mesmo sendo mais mediático. O problema está mesmo no perfil e depois, claro, na gestão de expectativas porque quem contratou vai começar a cobrar mas quem trabalha com os jogadores não os escolheu. E por isso, acho que Keizer recebeu um presente envenenado.

Quanto a Keizer, desejo-lhe o melhor pois vai ser mais uma vítima dos nossos problemas. Apesar das limitações estarem à vista, não duvido da sua intenção e até ideia de jogar bom futebol. Nem sequer duvido da aparente ideia de gostar de apostar na formação, afinal fê-lo no Ajax e é bem mais provável que tenha sido o Sporting, com os seus problemas de indefinições e de incompetência crónica a alterarem, de forma mais ou menos forçada, essa filosofia do treinador. Filosofia essa que, para acontecer, é preciso haver sintonia total entre estrutura e treinador. E cheira-me que não vamos ficar por aqui, até dia 31 é mato e estamos em crise ou pré-crise. Do the math. E MK vai ter de os avaliar com uns vídeos de ocasião e de repente tem que os integrar na equipa. Dir-me-ão: Mas esse é que é o trabalho de um treinador! É. Se não quisermos ser campeões. É isso que todos os clubes pequenos fazem. Quem quer lutar por títulos de forma duradoura tem de compartir a respnsabilidade das decisões com o treinador pois se é o treinador que trabalha o modelo e os jogadores que fazem o modelo, ele é a pessoa mais qualificada para decidir o recrutamento…para o seu modelo! Isto é dos livros! O que é preciso, e a história demonstra que não o sabemos fazer, é encontrar um meio-termo entre o treinador que até a cor dos azulejos do balneário decide e o tal boneco que nem uma contratação pode escolher. O que estamos a pedir ao treinador é para construir um futebol que compita com os rivais com jogadores cujo conhecimento que ele tem deles é limitado ou inexistente. Seria exequível se a qualidade do recrutamento fosse indiscutível e com jogadores de valor (futebolístico e de mercado) inatacável. Não é, definitivamente, o caso.

É o problema das estruturas sem treinador. Não existem. Tal como treinadores sem estrutura. E, para nossa infelicidade, parece-me que sofremos de ambos.

ESTE POST É DA AUTORIA DE… Sá
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