Há muito tempo atrás, numa remota aldeia algures no Japão, um dos seus habitantes, um dos mais experientes e idosos, antecipou um evento chocante que traria um impacto profundo para a aldeia e para os seus habitantes. Com a sua sabedoria, e seu conhecimento do equilibrio da natureza, soube interpretar com perspicácia os sinais que vibravam das árvores, e os sons que os animais estranhamente emitiam – e percebeu com certezas claras que se encaminhava um tsunami na direcção da pequena aldeia. Contudo, o que o mais perturbou no imediato, não foi saber que a gigantesca onda se aproximava e iria levar tudo pela frente, foi, antes, não descortinar como dar a notícia á aldeia sabendo que iria causar pânico generalizado. Para ele era claro que partilhar a sua descoberta não era viável, e só iria causar uma impossibilidade de organizar uma solução. Por isso decidiu meditar sobre o assunto e não agir impulsivamente e o tempo que tomou foi o suficiente até que teve uma epifania.

Sem demoras, subiu à escarpa acima da aldeia onde ficavam as hortas, que eram grande parte da subsistência da aldeia, e ateou-lhes fogo. Depressa correu depois a avisar os aldeões dos terriveis incêndios que estavam a ocorrer nas hortas, e depressa estes acorreram em massa, munidos de água e utensilios para rapidamente os extinguirem. Foi quando todos estavam atarefados a socorrer as hortas na escarpa que o violento tsunami se abateu sobre a aldeia, deixando um rasto desolador e devastando as habitações precárias – mas, ninguém morreu. O velho aldeão conseguira salvar a vida dos seus conterrâneos, apesar de toda a destruição do tsunami e das hortas, com o incêndio que provocara. Sabia que iriam passar muita fome e sofrimento, mas isso era um mal menor comparado com as inúmeras vidas salvas e a própria continuidade da aldeia que não poderia reeguer-se sem mãos para a reconstruirem.

Moral da História
O que esta história nos diz, é que a solução para um problema pode não ser o mais óbvio e às vezes são preciso acções contraditórias e fora da caixa. Também, se existe um problema, existe solução, ainda que ela não seja tão óbvia. Por vezes confundem-se factos com problemas e isso é chave para qualquer análise. Os factos não têm solução, os problemas têm e é isso que os define.

E o que é que tudo isto tem a ver com Henrique Monteiro? Imaginemos então que fosse Henrique Monteiro a estar na aldeia e a ser ele a saber que o tsunami viria para a devastar. O que aconteceria? Para Henrique Monteiro a destruição da aldeia não seria um problema, seria um facto consumado e não haveria nada a fazer. As pessoas morreriam, e as colheitas das hortas nas escarpas ficariam por colher, apodrecendo com o tempo. Nada sobreviveria e nada restaria, apenas escombros e podridão.

É assim que Henrique Monteiro enquadra o Sporting. De braços caídos, dá a situação do Clube como um facto, sem solução possível, de maneira que nem equaciona sequer “incendiar as hortas das escarpas” para dar um novo rumo ao clube. O tsunami que venha e que varra o Clube por completo e mate toda a sua tradição.

Porque haveria o Sporting de perder a maioria da SAD? Gostava que Henrique Monteiro respondesse a esta simples pergunta, um pouco mais extensivamente e exaustivamente do que simplesmente afirmar que tem que ser, porque tem que ser. Tem o Sporting garantias que vá ser campeão, ou melhorar com a perda da maioria da SAD? Nada garante isso, e se o seu argumento é esse, é completamente vazio.

Mas não é muito dificil ser mais exaustivo. Henrique Monteiro escolhe o caminho da perda da maioria da SAD e considera isso uma inevitabilidade, não por uma questão de análise e clarividência, mas porque não quer admitir que a sua participação na escolha do caminho actual do Sporting está a resultar num completo desastre. Sim, Henrique e companhia assumiram um caminho, fizeram uma escolha, e isso resultou na eleição deste Conselho Directivo liderado por Francisco Varandas. Escolha que se está a demonstrar como devastadora, mas que parece que lhe é alheia, mas não é. Ele é responsável por ela e por isso escolhe não falar sobre isso, escolhe não fazer uma crítica a isso, escolhe nem sequer falar nos resultados da gestão do actual CD – a perda da maioria da SAD como inevitabilidade, é o assobiar para o lado de Henrique Monteiro.

Pequeninos e limitados?
Não somos nós, comuns adeptos, que somos pequeninos e limitados. Por um motivo muito simples. Nós queremos o Sporting como um Clube e não como um prestador de serviços, como se fosse uma loja onde vamos, pagamos, obtemos um serviço e já está, acabou. Queremos o Clube como uma relação emotiva, sentimental, com significado, e não como uma uma transação mecânica sem alma, onde se leva um qualquer produto descartável que ao fim de algum tempo deixa de ter uso. Somos Sporting e o símbolo do Leão Rampante tem uma história de gerações que não é descartável. Nós não temos problemas em “queimar as hortas da escarpa” mesmo que isso nos traga tempos de dificuldades e muita “fome”. Sacrifício faz parte de viver o Sporting.

A retórica para Henrique Monteiro é fácil: quem não comunga comigo, é o inimigo. Uma das estratégias mais utilizadas para limpar o ar e evitar falar do contexto e de como se chegou aonde chegou, e assim despir soluções que existem e que devem ser faladas, por mais que lhe custe. Não há inevitabilidades e há sempre alternativas.

Pequeninos e limitados? Ao contrário do Henrique que lava mãos como se não tivesse responsabilidade do estado actual do Sporting, nós temos alguma coisa a dizer e ainda queremos que os sócios tenham a última palavra e essas acusações são pólvora seca.

henrique manif

ESTE POST É DA AUTORIA DE… Montenegro
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