A entrevista é de hoje e estas são as passagens que me pareceram mais interessantes, por estarem directamente relacionadas com o Sporting

(in O Jogo)

A tese mais popular do momento é esta: o Sporting do Leonardo Jardim jogava com cautelas; o do Marco Silva joga para o ataque e para o espetáculo. Aceita essa distinção?
Isso pode ser visto pelo número de golos. Atacar é o quê? Resume-se ao número de golos. Quando marcou mais? Na época passada, o Sporting foi uma equipa extremamente ofensiva. Fez muitos golos – mais golos do que marcava há muitos anos. De qualquer forma, não é relevante. O futebol é um jogo de equilíbrios. Tudo o resto passa ao lado. [n.d.r.: à 7.ª jornada, o Sporting de Jardim tinha 19 golos marcados, contra os 13 desta época].

Não sendo essa, que diferença vê entre o seu Sporting e o atual?
O Sporting entra com outra autoestima. Hoje, os jogadores do Sporting não devem nada aos outros plantéis. Podem enfrentá-los olhos nos olhos, coisa que não acontecia no ano anterior. Tivemos de trabalhar muito em termos técnicos e de organização, mas também em termos psicológicos, para aumentar os níveis de autoestima da equipa e dos jogadores individualmente, porque vinham de uma época desastrosa. Foram eles que acabaram no sétimo lugar em 2012/13, mas também foram eles os vice- campeões no ano passado. Houve uma evolução a estes dois níveis. Hoje é uma equipa com maior autoestima e um reforço que a ajuda muito, que é o Nani, pela sua qualidade, maturidade e carácter em termos de balneário e de jogo; vem dar mais alegria e diversidade ofensiva à equipa. O Sporting é tão candidato como os outros, também porque os adversários não se conseguiram reforçar. Pelo contrário, em termos individuais perderam dois/três jogadores que podem ter importância no equilíbrio dos pratos da balança [ nota da Tasca: ó Ruca, tu achas mesmo que o Porto não conseguiu reforçar-se?!?].

E as tais diferenças táticas, ou de conceito, não vê nenhuma?
Não vejo o futebol português com tanta assiduidade nem tenho dados para fazer essa análise. Só uma análise mensurável: golos e pontos. À sétima jornada, nenhum dos candidatos perdeu.

Pôs sempre reservas quanto à possibilidade de discutir o título esta época, mesmo depois de Bruno de Carvalho ter apontado para lá. Qual foi o imprevisto que o fez mudar de ideias?
Um projeto de luta pelo título inclui todo o panorama, incluindo os adversários. Primeiro fator foi a manutenção da maioria dos jogadores e o regresso do Nani, que, em termos ofensivos, veio dar maior qualidade; depois, o facto de os outros dois terem perdido jogadores que tinham sido importantes. Mas isto é uma análise “a posteriori”; se recuarmos cinco meses, era impossível o Nani vir para o Sporting, era impossível não perder alguns jogadores e era impossível que os nossos adversários enfraquecessem. Quem esperava que saísse? Com certeza que não foi por falta de propostas que não saíram quer o William quer o Rui Patrício, pelo que mostraram ao longo da época e que tinham mercado para ingressar noutros campeonatos mais sugestivos. Mais até do que o Marcos Rojo.

Entretanto, o Sporting foi mais um clube de uma época só. Por que razão não consegue o Leonardo Jardim acabar um ciclo?
No futebol, o projeto é a época desportiva. Quando vais para um clube, é mau dizer que vamos entrar num projeto de três ou quatro anos. Se nos dois primeiros meses não ganhas, lá se foi o projeto. Para mim, o projeto é a época desportiva, por isso não acho que tenha saído a meio de um projeto do Braga. O projeto era a qualificação para a Champions League, o terceiro lugar do campeonato numa época em que perdemos mais de 50% dos jogadores; na época seguinte já havia outro patamar, que era consolidar essa terceira posição ou conseguir ainda mais – e nesse projeto eu já não entrei, foi o treinador seguinte, que até acabou por dar um passo atrás em relação às classificações desportivas.

Até costumava dizer que, sempre que saiu de um clube, quem veio a seguir fez pior. É uma profecia para o Sporting do Marco Silva?
Fizeram-me uma pergunta e eu respondi como respondo sempre, com coisas mensurá- veis. A equipa ataca muito, sim senhor, e quantos golos tem? Olha, tem menos de metade dos golos do ano passado. E então no ano passado é que não atacava? Eu gosto é de coisas mensuráveis: dizer “OK, saí do Braga, sim, e o treinador que veio a seguir ficou abaixo do que eu tinha conseguido; saí do Beira-Mar, sim, e o treinador que veio a seguir ficou abaixo.” Dei uma resposta mensurável, que dizia respeito ao que eu tinha feito até essa altura, ou seja, até à minha entrada no Sporting. O futuro ninguém sabe, mas o que espero é que o Sporting faça bem, como todos os clubes que treinei até agora.

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Mantém contactos com o presidente do Sporting?
Sim, e até com alguma frequência. Em pessoa, a última vez foi aqui no Mónaco, no sorteio da Champions League. Conversámos sobre vários temas, do Mónaco ao Sporting. As épocas estavam a começar e falámos um bocadinho de tudo.

Nestes últimos dias, ele tem feito alusões recorrentes ao FC Porto-Sporting do ano passado. O que se passou, afinal, nesse jogo?
A equipa e o treinador procuram preparar o jogo sem terem muito em conta o que se passa no exterior. Se virarmos o foco para os árbitros ou para os adeptos, porventura podemos perder o mais importante, que é o jogo. Quando algumas situações não estão normais, nós treinadores procuramos minimizar, porque defendemos que lá dentro é que se resolvem as coisas. Com certeza, existem essas picardias.

O que sucedeu de anormal?
Perdemos o jogo. Acho que é normal, nas equipas grandes, quando recebem um adversário direto para o título, não o receberem como se recebe um amigo em casa. Em todos os jogos, respeita-se o regulamento, mas não de uma forma amigável. Se houve incidentes relevantes? Não me lembro de nada de especial, sinceramente.

A ênfase que o Bruno de Carvalho dá ao tema, vê-a como uma oportunidade de mostrar um Sporting agressivo, insubmisso, ou encontra outra justificação para tanta autodefesa?
A entrada do Bruno de Carvalho no Sporting era extremamente necessária. Reformulou o clube em vários sentidos: na organização, na valorização de quem merecia, no corte dos excessos – porque no Sporting havia muitos – e na ambição que ele próprio cria em toda a estrutura. Essas diretrizes foram muito importantes na época passada, para ganhar o respeito dos adversários e também para garantir que, no futuro, o clube pode competir pelos mesmos objetivos que eles.

Não respondeu ao essencial: o cenário de quase guerra é real ou é só o aproveitamento de uma oportunidade para mostrar, digamos, atitude?
Ele é muito expressivo naquilo que são os seus ideais. Tem uma estratégia, e as estratégias são boas ou más consoante se ganha ou se perde. Neste caso, tem conseguido atingir os objetivos. Cada pessoa tem a sua forma de estar e a sua estratégia para passar a mensagem. Eu sou um pouco diferente; se calhar, era por isso que nos relacionávamos bem. Ele tinha uma forma mais eufórica de passar a mensagem e eu tinha algumas cautelas, para existir um equilíbrio. Esse equilíbrio é que foi importante para o sucesso do Sporting.

Vai continuar a dar preferência ao clube da sua simpatia no futuro?
O Sporting, como toda a gente sabe, era o clube da minha simpatia quando jovem e fiquei extremamente satisfeito por trabalhar lá, mas, quando passas a ser profissional, deixas de ser simpatizante de futebol. E eu tive essa experiência, por exemplo em Braga.Treinei o Braga, joguei contra o Sporting e tive um grande orgulho em ficar à frente deles e em lhes ter ganho um jogo; e no Beira-Mar também. Em primeiro lugar está o teu clube; aquele que tu representas. E também acho que passas a ser um pouco adep todos clubes em que trabalhaste.

Que ecos lhe chegaram da reação negativa dos adeptos à sua saída?
Não tenho essa opinião. Estive um mês em Lisboa depois de ter saído e encontrei vários sportinguistas. Eles compreendem que as decisões não dependem só de nós, também há um con- texto e era este: vender um treinador é benéfico para o clube; e, para o treinador, era a possibilidade de avançar para um projeto diferente, como era o do Mónaco inicialmente. A maioria das pessoas percebeu. Se não acontecesse, continuaria pelo menos mais um ano. Foi uma decisão unânime e cordial, as partes entenderam que era a forma de ninguém acabar prejudicado.