E, para mim, não voltaram a “rugir” da mesma forma. Aliás, desde esse 1 de Maio de 1994, dia em que Ayrton Senna fez a sua última volta com vida, a F1 passou a ser uma mera leitura complementar a memórias que ficarão, para sempre, à velocidade do Lotus Renault preto, de onde sobressaía o capacete amarelo.

Conforme escreve André Abrantes Amaral, no Observador, «Ayrton Senna da Silva não foi apenas o melhor piloto de F1 de todos os tempos. Não foi apenas alguém que inspirou milhões de pessoas a serem maiores do que o destino lhes traçou. Foi, acima de tudo – e é isso que pretendo realçar aqui —, alguém que deslumbrou um miúdo. A vida e a carreira de Senna é demasiado abrangente para caber num texto. Assim, o que vos apresento hoje, 25 anos após a sua morte, é uma compilação de datas. As que mais me marcaram. A mim e aos que não perdiam uma corrida do piloto brasileiro.

3 de Junho de 1984 – Grande Prémio do Mónaco
Chuva. Niki Lauda e Nigel Mansell estavam de fora da corrida por despiste. Um Prost cuidadoso cuidava que a corrida terminasse o quanto antes. Até àquele dia, e perante a chuva, os pilotos corriam na expectativa que a prova terminasse sem que nada de especial acontecesse. O truque era aguentar, algo perfeitamente possível para os que não arriscassem. Exímio nessa arte, Alain Prost tinha tudo para vencer. Até que… até que um carro fraco conduzido por um desconhecido chamou a atenção de todos. Partira do nono lugar, mas depois da saída de Keke Rosberg, do despiste de Mansell e do afastamento de Lauda já seguia em segundo. O seu carro era um Toleman, o piloto chamava-se Senna. Eu, como muitos outros, não o conhecia. Foi engraçado vê-lo chegar ao segundo lugar, mas atacar Prost era impensável. Seria demais. Chovia a potes, Prost era o Prost e o Mónaco não era para brincadeiras. Mas Senna, que gostava de impossíveis, não levou muito tempo para nos mostrar que atacar Prost não só não era impossível, como era indispensável.

Ainda hoje quem se lembra fica estupefacto com a segurança de Ayrton Senna a guiar o seu Toleman, quando comparado com a fragilidade e insegurança das figuras maiores desse tempo que corriam em carros muitíssimo superiores. A vitória não lhe chegou porque Jacky Ickx, o director da prova, decidiu pôr termo à corrida evitando a humilhação do piloto francês. Foi um Senna com cara de poucos amigos que cumprimentou o princípe Rainier e que conquistou os seus primeiros admiradores. Ali estava alguém por quem valia a pena torcer.

21 de Abril de 1985 – Grande Prémio de Portugal. Estoril
Chuva torrencial. Outra vez a potes. E a primeira das muitas vitórias de Ayrton Senna. Foi neste dia que me tornei um admirador incondicional de Senna. No dia em que sentado no chão da sala lá de casa passei a tarde defronte do televisor, espantado, em êxtase, perante a maravilha daquela condução, um baile debaixo de chuva com os pneus a fazerem aquele efeito de chuveiro. Eram os carros a derrapar, os pilotos a desistir ou a travarem nas curvas e Senna, como se nada fosse com ele, como se não estivesse ali mas numa outra pista, provavelmente seca, a conduzir e a seguir na frente com um carro que não lhe fugia das mãos. Terminou em primeiro lugar pela primeira vez (com mais de um minuto sobre o segundo classificado, Michele Alboreto) e deixando muito para trás outros grandes pilotos da altura como Patrick Tambay e Elio de Angelis. Niki Lauda e Alain Prost ficaram de fora. Este foi o dia em que um Lótus ganhou aos poderosos McLaren e à lendária Ferrari.

Como foi também a partir desse dia que ver Fórmula 1 deixou de ser para mim uma agradável forma de passar a tarde, um entretenimento de Domingo, e se transformou numa luta, numa ansiedade pela vitória. A partir deste dia deixei de assistir às corridas, limitando-me a ver Senna. A transformação foi tal que saía de frente do televisor quando o brasileiro saía da pista. Como deixei de ver F1 quando este morreu em Imola, nove anos mais tarde. Isso foi possível porque fiquei aprisionado não só pela condução que me conquistou (era novo e pouco percebia disso), mas também pela alegria com que o Senna festejou a vitória na volta da consagração: aos saltos dentro do carro, punhos cerrados, todo contente, Ele não se cansa de comemorar ouve-se o locutor no vídeo, esquecendo-se uma vez mais que chovia, que tudo estava molhado, que o dia se encontrava escuro, daqueles de ficar em casa a ver o tempo passar, mas que não se colavam a ele, não àquele fenómeno, não àquele piloto para quem pilotar em chuva era mais fácil que para os demais seria conduzir em tempo seco. Posso dizer que Senna estragou o gosto prazenteiro e não comprometido com que eu via F1, mas a paixão que me incutiu no que fazia, na garra com que se pode viver, valeu o que deixei para trás.

22 de Junho de 1986 – Grande Prémio de Detroit, EUA
Para compreendermos esta corrida temos de saber o que se passou no dia anterior. A 21 de Junho deste ano o Brasil foi eliminado do campeonato do mundo de futebol pela França. Penalties. O maravilhoso Brasil de Zico, Éder e Sócrates caía pela segunda vez, depois da derrota frente à Itália, em 1982. Eu, que era um adepto português do escrete, fiquei desolado. Triste. No dia seguinte, um Domingo, foi com o peso da derrota no coração que só as crianças conseguem trazer, que soube da vitória de Senna nos EUA.

A limpeza da alma, a desforra, a prenda que Senna deu a todos (ele conquistou o Brasil todo com aquela vitória) com aquele carro pintado de preto e as letras douradas a dizerem John Player Special, mais o capacete verde e amarelo e uma pequena bandeira do Brasil desfraldada na volta de consagração.

Os mecânicos do motor Renault podiam ser franceses, mas a vitória era brasileira. O Brasil ficou naquele dia a saber quem era Senna: alguém capaz de trazer um país dos escombros, de enxugar as lágrimas, afastar a tristeza e renascer com ela. Foi a primeira vez que Senna levantou a bandeira brasileira e o Brasil ficou com ele no coração para sempre. Muito para além do fim.

15 de Maio de 1988 – Mónaco
No Grande Prémio do Mónaco não houve um dia para recordar, mas 7. Seis vitórias, cinco consecutivas e uma derrota que foi uma lição que deu a Senna as ditas cinco vitórias seguintes. De 1987 a 1993, Senna venceu todas as provas à excepção da de 1988. A tal lição. Para que se compreenda bem a dimensão do feito (e não nos podemos esquecer da corrida de 1984), o Grande Prémio do Mónaco era considerada a maior prova da F1, uma das três provas do automobilismo mundial, a par com as 500 milhas de Indianápolis e as 24 Horas de Le Mans. Um circuito citadino, que faz parte do campeonato do mundo de F1 desde 1950. Nele correram Juan Manuel Fangio, Stirling Moss, Graham Hill e, naturalmente, Ayrton Senna da Silva. Ayrton dominou de tal forma este grande prémio que uma corrida no Mónaco era como uma corrida à chuva: tinha vencedor anunciado. Não havia ansiedade. Era só desfrutar. Sabendo isso, eu sentava-me na sala para ver o inevitável acontecer. Sabia bem prever o que se ia passar. E isso, o conseguirmos adivinhar o futuro, só um herói nos pode dar.

Mas não foi o que se passou em 1988. Na prova desse ano, Senna, na frente com um avanço de 54 segundos sobre Prost, bateu na curva Portier, um pouco antes da entrada do túnel. Foi na volta 67 de um total de 78. A vitória estava garantida e a McLaren pediu a Senna que reduzisse o ritmo. O brasileiro assim fez, mas quando soube que Prost se aproximara ligeiramente ignorou os avisos e pôs pé na tábua. Diz-se que queria humilhar o francês. O erro custou-lhe a vitória, mas serviu-lhe de lição. A partir deste dia, Senna tornou-se um piloto cada vez mais consistente e transformou-se numa lenda viva. Ninguém mais o bateu no Mónaco. De 1989 a 1993, venceu todas as provas monegascas. O circuito que exigia mais técnica e precisão passou a ter dono. Ainda hoje, o brasileiro detém o recorde de vitórias no Mónaco.

Mas a prova de 1988 deve ser recordada não apenas devido à derrota, mas também pela conquista da pole position, quando Senna produziu a melhor volta de qualificação de sempre da F1 e com 1,4 segundos menos que o segundo, Alain Prost. O misticismo de Senna nasceu neste momento com o próprio a dizer mais tarde que, durante essa volta, se encontrou noutra dimensão, conduzindo por instinto, indo além da sua consciência, antigindo a plenitude. O ponto onde se apercebeu não ser possível ir mais além e um sentimento que nunca mais foi capaz de repetir.

11 de Abril 1993 – Donington Park
A melhor volta de todo o sempre na Fórmula 1. Senna parte do quarto lugar da grelha de partida. Bloqueado por Schumacher perde um lugar no arranque e, partir daquela altura, a magia surge. Faz-se. Foi para se assistir ao que se passou naquela volta que a F1 apareceu, foi para voltas como aquela que ligávamos os televisores e nos ficávamos a ver as corridas. Um pouco desiludido com a fraca prestação na véspera vi Senna a ultrapassar Schumacher na terceira curva, a passar Wendlinger nas Craner Curves, Hill na McLean’s e a deixar para trás Prost na penúltima curva antes da recta da meta que faz já em primeiro. Os verdadeiros génios são assim: fazem-nos duvidar para de seguida nos surpreenderem e ficarem maiores do que já eram.

A corrida já estava terminada e ainda mal tinha começado. Senna venceu com uma volta sobre o terceiro qualificado, Alain Prost, e mais de 1 minuto e 20 segundos sobre o segundo, Damon Hill.

6 de Novembro 1994 – Grande Prémio do Japão, Suzuka
Antes do início da prova um helicóptero pintado com as cores do capacete de Ayrton Senna surgiu do nada e deu uma volta lenta ao circuito, parando e curvando-se em cada curva, numa homenagem silenciosa e sentida ao grande piloto brasileiro que os Japoneses idolatravam. Pela primeira vez, Senna não ia correr no Japão e o Japão sentiu isso em peso. A tristeza pela ausênsia do brasileiro era profunda e correspondia a um respeito que apenas alguém tão perfeccionista como Senna poderia incutir nos Japoneses. A Honda, que forneceu os motores à McLaren e os três campeonatos a Senna, nunca o esqueceu. A marca japonesa chegou mesmo em 2014, nos vinte anos da sua morte, e com recurso aos dados da telemetria do carro de Ayrton, a recriar a volta com que o brasileiro conquistou a pole position no Grande Prémio do Japão de 1989. Um feixe de luz indicava em que ponto da pista Senna estaria se estivesse a correr, numa tentativa nostálgica de recuperar um sentimento que nunca mais se repetiu.

Dir-me-ão que falta uma data: 1 de Maio de 1994. Não digo que não, mas é para ficar mesmo assim. Por ironia do destino não vi o Grande Prémio de San Marino. Não vi o acidente em directo, mas informaram-me logo do que tinha acontecido. Senna tinha morrido a fazer o que sabia melhor que ninguém. Pouco me interessou se fora erro dele ou falha mecânica. O que estava feito, feito estava. Nada havia a fazer, sequer a discutir. Acima de tudo, o que iria reter de Senna não seriam as guerras jurídicas sobre as causas do acidente e o modo como morrera. As datas referidas em cima são as que ficam, as que se recordam, as que valem a pena não esquecer. Há outras, muitas outras e cada um terá as suas. Não o questiono.

Independentemente dessas diferenças só quem vivenciou as corridas que Senna fez, venceu, completou em segundo, terceiro ou saiu (não ficar em primeiro para ele era perder, exigência que incutiu nos seus apoiantes) compreende este texto, já que fora do contexto as palavras aqui escritas não têm qualquer sentido. Não o terão para os mais novos, que se me ouvem falar de Senna, o fazem com desinteresse e um certo enfado. Também não vou cometer esse erro: nunca falarei de Senna sem ser a pedido; tal como nunca escreveria este texto se não fosse para ser lido por quem torceu pelo brasileiro. Por quem, 25 anos depois, ainda se lembra.

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