Depois de uma época penosa, onde passamos do 80 ao 8, fomos brindados na última conferência de imprensa da época por mais uma demonstração de bazófia do nosso timoneiro, cheia de recados, internos e externos, e que mais uma vez levanta a já tão badalada discussão – a aposta na formação como base da equipa principal pode render títulos?

Mas antes de entrar a fundo nessa questão, convém desde já frisar, para evitar discussões paralelas fúteis, que considero JJ um excelente treinador, ainda o melhor em Portugal, e que as suas opiniões são legítimas e, porque empíricas, certamente muito mais sustentadas que a minha. Mas o desporto, e o futebol em particular, é muito mais do que o simples jogo da bola, o conhecimento técnico dos intérpretes, ou a inteligência táctica de quem comanda. É um fenómeno sociológico, em que uma quantidade praticamente infinita de factores acaba por influenciar o desenrolar do jogo e das competições, e que determina, não raramente, que os favoritos acabem por perder e que o “underdog” acabe a festejar.

É por isso que surgem inúmeros clubes e associações, motivados por esta ideia utópica de que é possível ganhar a qualquer um, que representam locais, regiões e até mesmo valores culturais distintivos, e que no simples jogo da bola acabam por transportar lá para dentro qualquer coisa de intangível, a tal “mística”, que os mestres da técnica e da táctica não sabem muito bem explicar, mas que (tal como JJ – assinale-se) percebem que existe e que até exerce influência, por vezes decisiva (mesmo que negativa!), no desenrolar do jogo e das competições.

Como tal, respeitando a opinião de JJ, validada pela sua vasta experiência, nós, os simples adeptos que criam a tal “mística” e exercem a tal influência que não se sabe muito bem explicar, também temos uma palavra a dizer, e que não deve ser ignorada. Como tal, JJ não pode querer aquilo que o povo chama de “sol na eira e chuva no nabal”. Ou seja, quer o apoio, mas prescinde do pensamento de quem apoia. Isso não funciona a longo prazo, e quando não há resultados desportivos, nem a curto prazo… Funciona durante o tal “estado de graça”, mas esse, meu caro JJ, já se esfumou…

Alguns dirão que esta dicotomia existirá sempre. Talvez. Mas parece-me evidente que ela será tanto maior quanto menos clara e objectiva for a estratégia, ou quando os valores que sustentam determinada “mística” estão difusos e desconexos. E é por isso que eu faço esta reflexão, pois tem havido claros enviesamentos e desentendimentos em relação à estratégia a seguir, minando relações de confiança, que em nada contribuem para as realizações futuras da organização. E a reflexão é simples – e se os nossos estatutos dessem uma ajuda, definindo de forma mais objectiva o que deveria ser a base das nossas equipas principais?

Sei que isto é polémico, pois reduz graus de liberdade de quem gere, mas tenho reflectido muito sobre o que é a “mística” do Sporting nos dias que correm, e de que forma podemos torná-la mais poderosa, e parece-me que seria inovador que os sócios pudessem consagrar essa “mística” nos estatutos do clube que tanto amam. Qual é a nossa “mística”, afinal?

Primeiro acho que devemos ir à génese do clube. Fomos fundados como clube de Portugal e isso, parecendo pouco, significa muito. Desde logo porque é distintivo em relação aos nossos maiores rivais, mas também porque Portugal não se vive apenas neste espaço geográfico, mas sim em todo o mundo lusófono. A língua é a nossa pátria, é a base cultural de um povo, e onde se fala português a sensação de conforto e de pertença é imediata.

Segundo, devemos olhar para a nossa história e prática continuada ao longo de mais de um século. Somos um clube ecléctico e formador, que aposta na promoção transversal do desporto e na formação técnica e humana do atleta como base da nossa existência. Um sportinguista gosta de ganhar, mas sabe que o desporto não se esgota no levantar troféus. Não é por acaso que no nosso lema a glória aparece no final. Antes disso é necessário muito esforço, dedicação e devoção, precisamente os pilares de qualquer projecto formativo sólido.

E, para mim, não preciso de terceiro, nem quarto.

Estas são, a meu ver, as duas grandes marcas que distinguem já hoje o Sporting, mas que ainda poderão ser mais valorizadas, designadamente a nível dos estatutos, tornando a nossa “mística” inigualável, servindo ao mesmo tempo de guião para a gestão, evitando assim mudanças bruscas de estratégia, que em nada contribuem para a sustentabilidade futura do clube.

Trocando por miúdos, o que estou a sugerir é nada mais do que introduzir um texto nos nossos estatutos que consagre algo parecido a isto: O Sporting Clube de Portugal, no respeito pela sua génese e história, deverá promover todos os esforços para ter nas equipas principais das suas modalidades colectivas uma maioria de atletas formados no próprio clube ou, não o sendo, de nacionalidade portuguesa ou de qualquer país lusófono.

Antes que comecem a dizer que é um disparate, que hipoteca a capacidade competitiva, ou que até viola a lei bosman, convém perceber o que significa isto na prática. Por exemplo num plantel de 25 jogadores, 13 desses jogadores deveriam ser oriundos da formação (independentemente da nacionalidade) ou portugueses ou de um país lusófono. Ou seja, ainda sobravam 12 sem qualquer restrição! Aliás, o plantel actual do Sporting até preenche os requisitos:

Rui Patrício (1); Beto (2); Jefferson (3); Paulo Oliveira (4); Rúben Semedo (5); Ricardo Esgaio (6); Bruno César (7); William Carvalho (8); Francisco Geraldes (9); Adrien Silva (10); João Palhinha (11); Gelson Martins (12); Daniel Podence (13); Gelson Dala (14); Matheus Pereira (15).

Ažbe Jug (1); Ezequiel Schelotto (2); Sebastián Coates (3); Douglas Teixeira (4); Marvin Zeegelaar (5); Bryan Ruiz (6); Alan Ruiz (7); Joel Campbell (8); Luc Castaignos (9); Bas Dost (10).

Além disso, o simples facto de ser um objectivo, mas não uma regra rígida, não impediria a contratação de um qualquer jogador apenas por causa disso, deitando assim por terra qualquer eventual ilegalidade relacionada com a livre circulação de jogadores europeus.

É claro que podem perguntar-se – mas se já cumprimos isso, para quê formalizar? Aí é que está. É que a consagração nos estatutos de algo deste género, deitava por terra eventuais visões díspares de dirigentes que servissem o nosso clube, obrigando-os a seguir uma determinada política, mantendo na mesma bastantes graus de liberdade para a sua gestão, atendendo à flexibilidade da regra.

Além disso, aquela ideia da aposta na formação e no jogador português, no caso do Sporting, deixava de ser um chavão usado apenas quando dá jeito, mas uma verdadeira marca distintiva, consagrada nos estatutos, e que na mente de muitos jovens jogadores e seus encarregados de educação poderia fazer a diferença na hora de escolher o clube para a sua formação desportiva. Já para não falar do impacto que esta medida teria no restante mundo lusófono, onde o futebol português já é acompanhado com muita paixão e que certamente veria com bons olhos esta política de igualdade entre o jogador lusófono, independentemente de ser português.

Mas mais importante do que tudo isto, é que estas marcas distintivas, estando consagradas estatutariamente, tornar-se-iam motivo de orgulho para os sócios e adeptos que as consagraram, tornando-se elas próprias o motor de uma estratégia de longo prazo, que em vez de desagregar uniria, mobilizaria, permitindo ultrapassar de forma mais coerente as derrotas e viver de forma muito mais intensa as vitórias, pois elas seriam a natural consequência de valores partilhados e sentidos pelos adeptos.

JJ não se interessa muito por isto dos valores e da estratégia a eles associada, preferindo dar ênfase à tal questão da estrutura. Mas o que é estrutura senão apenas competência ao serviço de um projecto, de uma estratégia, de princípios bem definidos e que sejam uma marca distintiva da organização perante os seus maiores rivais?

Quando isso existe e tem prática continuada, a tal estrutura aparece inevitavelmente, torna-se forte e resiliente, e, mais cedo ou mais tarde, torna-se ganhadora. Nunca seremos verdadeiramente diferenciadores só por ter, na teoria, uma boa estrutura, com pessoas aparentemente muito dotadas, mas que não estejam ao serviço de um projecto no qual os adeptos acreditam, sem reservas.

E é por isso que surgiu esta ideia, aparentemente utópica, certamente romântica, a fazer lembrar um pouco os amigos leões do grande Athletic Club, mas de alcance global, como se exige ao nosso grande Sporting. No fundo é apenas passar para o papel os valores que penso serem partilhados pela grande maioria dos sportinguistas. Uma simples passagem para o papel, mas que, a meu ver, poderia significar muito para a nossa história futura.

TEXTO ESCRITO POR Adolfo Sapinho
*às quartas, a cozinha da Tasca abre-se a todos os que a frequentam. Para te candidatares a servir estes Leões, basta estares preparado para as palmas ou para as cuspidelas. E enviares um e-mail com o teu texto para [email protected]