Fala com o coração e ainda hoje ri muito das partidas de que foi alvo quando chegou ao Sporting, vindo de Moçambique. Numa conversa via telefone, Paíto conta como era difícil fazer amigos na escola porque andava descalço e vestia a mesma roupa durante uma semana ou como a matéria da escola não entra quando se está com fome. Entre muitas histórias, garante que podia ter morrido por causa do futebol, revela que Fernando Santos era conhecido como o “senhor das duras”. E fala da famosa “cueca” que fez a Luisão, num jogo da Taça, na Luz. A viver em Moçambique, apesar de a família estar em Portugal, é dono de várias lojas de conveniência, de camiões cisterna e, desde dezembro assumiu o cargo de vice-presidente para as seleções na federação do seu país de origem. Vale a pena ler esta entrevista de Paíto ao Expresso

Nasceu em Moçambique, mais concretamente onde?
Na Machava, Matola, Maputo. Sou o segundo mais velho da minha casa, tenho mais três irmãos da parte da minha mãe. Na altura, o meu pai emigrou muito cedo para a África do Sul. Só o vim a conhecer em 1997, com 15, 16 anos. Quando ele saiu de casa eu só tinha cinco anos.

Recorda-se como do reencontro?
Perfeitamente. Eu estava em minha casa, casa da minha mãe. Ele fez um almoço na casa dele e depois ligou e falou com a minha mãe, disse que teria muito prazer em poder-me apresentar alguns irmãos e conhecer-me também. E lá fui.

Era muito diferente do que tinha imaginado, estava nervoso?
Estava sereno… É complicado, porque infelizmente não tinha nenhuma fotografia dele em minha casa. Nunca tive uma imagem dele. Não o imaginava. Cresci praticamente sem saber chamar ninguém de pai e foi tudo muito estranho porque não senti aquele carinho, aquele afeto. Só vi um senhor que estava ali à minha frente. Uau, este aqui é que é o meu pai? Há outras coisas muito mais importantes que eu valorizava, que é afecto, coisas que eu não senti quando o vi. Fiquei contente, obviamente, porque finalmente conheci o meu pai, mas depois fiquei com pena porque não consegui ter o carinho, o abraço. Eu cresci, não digo revoltado, mas…Eu sabia que ele existia e perguntava: mas porque é que ele não vem nos ver? A África do Sul é aqui perto. E sabia que ele de vez em quando vinha para Moçambique, mas nunca se interessou por nos conhecer. Pronto, assim foi. Se a gente só tivesse de falar do meu pai a entrevista ia ocupar todas as páginas (risos).

A sua mãe o que fazia para vos sustentar?
A minha mãe trabalhava numa empresa que fabricava cola, perto de casa, que se chamava Socole. Foi com essa empresa que nós crescemos. Mais tarde, essa empresa fechou e começámos a passar muitas dificuldades. Os nossos avós maternos é que ajudaram bastante, os meus tios da parte da minha mãe também. Depois, a minha mãe foi doméstica, só para poder nos sustentar.

O futebol começa naturalmente na rua.
Sempre foi a minha paixão, porque nasci numa família de futebolistas da parte da minha mãe. Os irmãos da minha mãe, que não são poucos, são uns seis, sete, todos eles foram futebolistas. Alguns jogaram na seleção de Moçambique, outros em equipas da primeira divisão. Ou seja, cresci rodeado de futebolistas e nós não tínhamos outro brinquedo a não ser a bola. Voltávamos da escola e a primeira coisa que a gente fazia era correr e pegar a bola para brincar com os amigos. Nem tínhamos tempo para fazer os deveres de casa. Aí é que era a dor de cabeça da mamã, sempre atrás de nós com uma vara para nos dar, mas não tinha hipótese (risos). Aquilo era um bichinho incrível, mas obviamente nunca pensei transformar o futebol em profissão e chegar onde eu cheguei.

Nessa época a bola era feita de trapos, era um chingufo.
Sim, a gente fazia muito chingufo, muito chingufo. Eram as bolas que a gente tinha. Mas um bocadinho mais à frente, como tive muito tios que trabalhavam na África do Sul, no nosso bairro fomos os primeiros a ter bolas melhoradas, compradas na África do Sul. O bairro todo já era conhecido a nível da região, porque tínhamos uma bola em condições, tanto que todos queriam jogar connosco para poder sentir o que era uma bola verdadeira (risos).

Quando era pequeno torcia por algum clube?
Em Moçambique sempre gostei do Matchedje de Maputo, que era o clube onde jogava um dos meus tios também. É um clube militar, digamos assim, e nesse tempo em Moçambique não havia comida; mesmo que tivesses dinheiro não tinhas possibilidade de comprar, porque havia escassez da comida e o meu tio, como jogava no Matchedje, que era uma equipa militar, tinha facilidade em arranjar os alimentos. Passei a gostar do Matchedje. Só que ironia do destino, quando cresci e comecei a querer jogar futebol, não fui para o Matchedje, fui para o Maxaquene, onde fiz quase toda a minha formação.

E como é que foi para o Maxaquene?
Na altura, tive a influência de um amigo meu na escola, na conversa. Eu apareço a jogar futebol porque gostava de assistir futebol. Chegou uma altura em que disseram que eu já não tinha idade para entrar de graça para assistir ao futebol e fiquei aflito. Assim, pensei: “mas o que é que eu faço, não tenho dinheiro para comprar o bilhete, o que é que vou fazer para continuar a ver jogar futebol?” Tanto que aparece um amigo meu na escola e eu disse-lhe: “Eh pá eu até que estou disposto a treinar para ter um cartão só para poder assistir os jogos”. Porque esse é que era o meu único interesse, ter o cartão, só para poder assistir os jogos ao fim de semana, não que eu quisesse jogar. Ele disse-me que estava no Maxaquene, eu queira jogar no Matchedje só que o Matchedje não tinha escolinhas e por isso acabei por ir com ele para o Maxaquene. No primeiro ano, tive o cartão e fiquei em casa, porque passei a assistir aos jogos. Só que depois chegou um certo dia e eles recolheram os cartões. Disseram: “Vais encontrar o teu cartão no clube” (risos). Aí tive de voltar para treinar e o treinador: “Onde é que andaste?”. Ele não sabia como me contactar, porque não tinha telemóvel na altura e não sabia onde é que eu morava. E assim fui para o Maxaquene.

Tinha que idade?
11, 12 anos.

Lembra-se do primeiro jogo pelo Maxaquene?
Eu tinha treinado durante a semana e fui convocado. Não sabia como é que era. Mas havia uma grande distância de minha casa até ao clube. Eram muitas horas. Eu tinha de andar a pé 30 minutos, depois apanhar autocarro e andar mais 15 minutos. Eu estava emocionado, feliz por fazer o meu primeiro jogo, cheguei em casa e disse: “Mamã eu estou convocado, amanhã tenho um jogo e peço à mamã para me acordar às cinco da manhã para apanhar autocarro às seis”; “Ok filho vai dormir à vontade que eu chamo”. Fui para a cama, mas eu quase que não dormia, porque a minha cabeça estava só a pensar que não podia atrasar porque era o meu primeiro jogo. Eu tinha um colega, cujo irmão, o Manito, é o meu melhor amigo, que jogava nos juvenis e era mais velho… a concentração dele coincidia mais ou menos com a minha e já tínhamos falado em ir juntos. Então, eu estava tão nervoso e emocionado, que às duas da manhã despertei de repente, levantei-me e pensei: “A mamã não me acordou, já estou atrasado”. Todo furioso, peguei a minha mochila, abri a porta de casa e saí a correr para casa do meu colega Edmundo. Nem tive tempo de acordar a minha mamã e perguntar porque não me acordou. Não, eu só queria ir jogar. Corri tanto, corri tanto para chegar a casa do Edmundo para ir junto com ele. Quando cheguei comecei a bater na porta dele com força, pa, pa, pa, pa, pa. A mãe dele vem abrir. “O que é que se passa meu filho?”. “Edmundo sai, está na hora vamos jogar”. A mãe dele lá conseguiu acalmar-me e eu expliquei-lhe a que horas tínhamos de jogar, todo aflito e foi quando ela me disse: “Mas agora ainda são duas da manhã” (risos).

O que aconteceu depois?
Fiquei sem força, cai logo assim, pau! Ou seja, era uma hora crítica em Moçambique em que ninguém podia andar na rua, porque Moçambique estava em guerra e se tu estavas na rua àquela hora, era porque eras o inimigo. A polícia podia ter-me baleado. Podia ter-me morto. Paíto podia não existir por causa da emoção de querer jogar futebol (risos). A mãe dele depois disse para ficar lá a dormir que, quando chegasse a hora, nos acordava. Mas eu não consegui dormir mais só a pensar que tinha arriscado a minha vida e que podia ter sido morto por causa do futebol. Eu recordo ter visto seis homens parados numa esquina, mas eu só corria porque queria era chegar e apanhar o meu colega para irmos jogar (risos).

Gostava da escola?
Nem por isso. Eu ia à escola porque tinha de estudar, mas nunca foi… Tem a ver também com as dificuldades que nós enfrentávamos em casa. Nós andávamos muito descalços e já havia miúdos na escola que tinham sapatilhas. Tu não tinhas e de uma certa forma acabas por sentir-te excluído sem ninguém te excluir obviamente. Tu passas uma semana com as mesmas calças, com a mesma camisa e os outros podem variar…Depois não era fácil fazer amigos. Aqueles amiguinhos que tinham as mínimas condições brincavam entre eles e tu, que não tinhas, acabavas sempre por te sentires meio excluído. Por isso, de facto, nunca me apaixonei pela escola. Mas era importante estudar.

Lembra-se do que sonhava que queria ser?
Eu sempre achei que pudesse ser um professor de educação física, porque era das aulas que eu adorava na escola. Tive um professor muito bom e apaixonei-me pela forma como nos dava as aulas. Pensava “Quando crescer quero ser assim, preparador físico”. Fora isso não tinha mais nada.

Foi fazendo a formação no Maxaquene e acaba por vir para Portugal. Como é que isso aconteceu?
Tudo na minha vida aconteceu muito rápido. Só fiz um ano de iniciados, passei logo para os juvenis e, quando estava no último ano dos juvenis, já jogava nos juniores. Eu fui para o Sporting pelas mãos de Hilário da Conceição. Lembro-me exatamente como se fosse ontem: ele chega a Moçambique, porque o Maxaquene precisava de um treinador, e falou com o Sporting, eles tinham um acordo, o Maxaquene era como se fosse um clube satélite do Sporting. Na altura, essa relação era mais sólida, hoje já não. É assim que chega o Hilário da Conceição ao Maxaquene. Quando chega diz: “Porra, mas essa equipa está a perder muito”. E começou a ver que a equipa tinha uma média de idades avançada. Foi assistir a um jogo meu dos juniores. E disse; “Eu quero este miúdo para os seniores já”.

Qual foi a sua reação?
Eu estava envergonhado, todo com medo. Só pensava: “Uau, como é que já estou aqui nos seniores?”. Eu estava ali no meio dos senhores, eu chamava-os de senhores. Nunca sonhei, nunca esperei poder estar no balneário com eles. Entrava e saia caladinho. E ele lançou-me ali. Disse; “O meu jogador a partir de hoje é o Paíto. O Paíto tem de jogar. Porque se perco com vocês, estou a perder com os mais velhos, e prefiro perder com o miúdo que ainda tem uma margem de progressão, ainda pode crescer”. A partir daí, jogo após jogo, foi-me metendo. Inicialmente não foi fácil, tinha medo, receios, mas depois fui ganhando meu espaço. Mas o Hilário não ficou muito tempo, ficou no máximo seis meses, porque ao mesmo tempo a seleção nacional estava sem treinador e a federação também lhe pediu para fazer parte da seleção.

O Paíto foi chamado por ele para a seleção?
Sim, deu-me a primeira internacionalização. Quando ele sai, passado os tais seis meses e vai para o Sporting, ele chega e diz: “Há miúdos interessantes em Moçambique e seria bom se vocês pudessem observá-los e acompanhá-los”. O Sporting não demorou e logo de seguida mandou a equipa B, em setembro de 2000, para Moçambique, para jogar connosco. Mas aquilo era de facto para poderem observar-me.

Sentiu essa pressão?
Senti. Era uma pressão muito grande. “Uau, eles estão a vir para me ver”. Deram-me tudo no clube dessa vez, chuteiras, comida para casa, perguntavam-me: “O que é que tu queres?”. E eu: “Uau, eu não vou aguentar isso” (risos). E a minha sorte, confesso, foi ter tido um treinador muito bom chamado Artur Semedo, que me tranquilizou e tentou aliviar aquela pressão que os dirigentes e adeptos tentaram pôr em cima de mim, um miúdo de 17 anos. Ele disse-me: “Paíto, não te preocupes que vai ser apenas um jogo. Tu sabes jogar, eles sabem jogar, vais perceber que não existe muita diferença no futebol”. Foi aí que comecei a dormir um bocadinho melhor porque de facto fiquei umas duas, três semanas sem dormir depois de terem confirmado a vinda deles.

Como foi quando chegou o Sporting?
Fizemos um torneio e as coisas correram bem. Eles queriam que eu fosse logo com eles no avião. Só que, naquele tempo, não havia bilhetes eletrónicos, não havia nada, era tudo manual e com papel (risos). A partir daí começou a tratar-se das coisas e só saí em dezembro para o Sporting.

Não esteve para ir para o Benfica nesse entretanto?
(Risos). E chorei tanto (risos). Isso foi antes do Sporting e talvez tenha sido isso que acelerou o processo com o Sporting. Eu ia para o Benfica, porque nós ganhamos os Palop’s em 1997. Havia observadores do Benfica esse ano e tinham referência de um outro jogador. Só que, quando chegaram aqui a Moçambique, ficam logo apaixonados por mim. Eles vinham só com um bilhete de avião e disseram que eu tinha de ir também. Quando o Zenito sai, passados três meses vieram atrás de mim, mas aí o presidente do clube disse que tínhamos de esperar porque já tínhamos mandado um jogador do Maxaquene para o Benfica. O Sporting soube, e quando soube boicotou a minha ida por causa dos acordos que existiam em que um jogador que saia de Maxaquene não pode ir para o Benfica, sem antes passar pelo Sporting. A não ser que eles não quisessem o jogador. Acho que foi mais ou menos o que aconteceu com o Eusébio. E pronto, não fui. Chorei tanto nessa altura.

Chorou porque preferia ir para o Benfica?
Não, eu sempre fui do Sporting, mas era uma oportunidade de sair de Moçambique e qualquer clube que aparecesse eu queria era sair, nem que fosse FCP, Vitória de Guimarães, eu queria era sair de Moçambique para poder dar um rumo à minha vida, à minha carreira. Eu não saí, mas o Zenito que tinha saído também, voltou. Foi no tempo de Vale e Azevedo e parece que ele na altura mandou embora todos os jogadores estrangeiros da formação do Benfica. Depois, aqueles dirigentes que me tinham dito para ter calma vieram ter comigo: “Estás a ver? O Zenito voltou e tu estarias a voltar também”. Foi aí que ganhei novamente ânimo para continuar a trabalhar e a lutar e ficar à espera de nova oportunidade.

Quando essa oportunidade do Benfica surge tinha quantos anos?
Uns 15, 16 anos.

Vem para Portugal, para o Sporting, com 17 anos. Lembra-se qual foi a sua primeira sensação quando aterrou em Lisboa?
(Risos) Lembro tudo como se fosse ontem. Vim sozinho, nunca tinha viajado sozinho, não foi um voo direto, tive de ir a Joanesburgo, Bruxelas, Lisboa. Cheguei a Lisboa cheio de frio. Já tinha apanhado frio em Bruxelas, não tinha casaco. Quando aterrei em Lisboa, parece que tinham adivinhado que eu ia chegar desprevenido e deram-me logo um casaco para o frio. Levaram-me diretamente para o antigo estádio José Alvalade. Quando entro no posto médico do Sporting, o primeiro jogador que vi foi João Vieira Pinto. Ele cumprimentou-me. Quando ele me cumprimentou, eu olhei para ele e aí é que despertei: “Já estou mesmo em Portugal. Uau. Este aqui é o João Pinto. Mas ele é tão pequenino” (risos).

Ficou a viver no centro de estágio, que ainda era no estádio?
Sim. Na primeira semana foi só choro. Eu cheguei em dezembro, a maior parte dos miúdos tinha saído, porque foram passar as férias de Natal a casa.

Onde passou esse Natal?
O Natal fui passar em casa do senhor Carriço. Trabalhava no núcleo, na porta 10A. Um senhor para o qual eu quero mandar um grande abraço porque nunca mais voltei a vê-lo ou a ouvir falar dele. Era o responsável pelos núcleos. Levou-me a casa dele e, quando chegou à hora de Moçambique, deu-me o celular dele para ligar para a minha mãe, eu só chorava, só chorava. Comecei a lembrar o verão em Moçambique… (risos).

Ficou numa camarata…
…Éramos quatro no meu quarto.

Lembra-se da primeira amizade que fez? Dos primeiros amigos?
Tinha um miúdo chamado Rui Lopes, extremamente extrovertido, ele jogava na equipa do Cristiano Ronaldo na altura. Foi a primeira pessoa que me levou ao Centro Comercial Colombo. Depois, claro, fiquei com aqueles miúdos todos, os Brumas, o Ronaldo, Gisvi, Mangualde… Fizemos ali amizades fantásticas, éramos como uma família. Porque passávamos serões juntos, íamos assistir aos jogos juntos. Como rapidamente tive oportunidade de jogar na equipa B, e depois na principal, eles ficaram curiosos, queriam saber qual era a sensação.

Foi para a equipa B antes de Ronaldo, certo?
Sim, muito antes de Ronaldo. Nessa altura ele era juvenil. Lembro-me até que, muitas vezes, ele dizia para eu ir assistir ao jogo dele, e acordava-me quando eu ficava a dormir. “Anda assistir ao meu jogo para depois me avaliar”. Ele gostava dessas coisas. E como o jogo era ali mesmo, nos campos Nº2 e 3, à volta do estádio, era fácil, era só acordar e caminhar um pouco (risos).

É verdade que o Cristiano Ronaldo estava sempre a elogiar as suas pernas?
(Risos). É verdade. Ele dizia: “Mas o que é que tu fizeste para ter essas pernas?”. Eu tinha que dizer que não fiz nada, que era natural. Ele só dizia: “Eu tenho que treinar, eu tenho que chegar aí, às tuas pernas”. Eu achava engraçado. Não percebia na altura o que é que as pernas tinham a ver, não percebia o que ele queria dizer. Mais à frente é que percebi o porquê.

Ele na altura já era obcecado com o treino?
Sim. Quantas vezes ele vinha desafiar-me para ir treinar à noite com ele. Só fui duas vezes. Eu dizia: “Não, esse miúdo aqui é maluco”. Porque primeiro tínhamos de fintar o segurança que estava ali connosco, depois como o ginásio não nos pertencia tínhamos de trepar, tinha umas escadas que só ele é que descobriu. E treinávamos às escuras porque não tinha nenhuma iluminação, mas ele lá sabia mais ou menos onde estavam as máquinas… Só visto (risos).

Qual foi o primeiro dinheiro que ganhou?
Mal cheguei, eles pagaram alguma coisa. 180 contos (900€), por aí, depois tinha os descontos e ficava nuns 120 contos (600€) .

Era muito dinheiro para quem tinha acabado de chegar tão novo de Moçambique. O que fazia ao dinheiro?
Era muito dinheiro, mas eu não tinha noção na altura. E confesso que gastava todo o dinheiro em celulares. Não sabia, a fatura demorou a chegar. Deram-me logo um cartão de celular que tinha contrato, eu ligava todos os dias para Moçambique. Todos os dias. E não havia redes sociais na altura, era só mesmo ligar de rede. Matar saudades dos amigos, da família. Quando apareceu a primeira e segunda faturas, passados dois meses, ultrapassava os meus ordenados todos (risos).

O que aconteceu?
Chamaram-me na direção a perguntar o que se passava e lá me explicaram com calma que não podia abusar nas chamadas. Depois, chegou-se a um acordo e tive de pagar pouco a pouco para poder liquidar a dívida.

Mandava algum dinheiro para casa, para a sua mãe?
Sempre, sempre. Essa foi a minha primeira preocupação. Quando comecei a ganhar esse dinheiro até disse à minha mãe que ela podia deixar de trabalhar. Porque o que ela ganhava não chegava a 50 euros. Eu já recebia um pouco acima dos 500€ então dizia-lhe: “Mamã não faz sentido a mamã continuar a trabalhar. Fica em casa a cuidar dos irmãos”. Eu já estava em condições de mandar dinheiro para poder cuidar dos irmãos.

Quando saiu do lar do Sporting foi viver para onde?
Primeiro ainda fomos para um residencial, na Av. 5 de outubro. Foi ao mesmo tempo de Ronaldo, Mangualde, Alemão, Osório, José Fonte, etc.

Começam as saídas à noite?
Não, eu sempre fui pacato, reservado. Havia alguns colegas que tinham um bocadinho de liberdade, alguns deles já tinham carro, mas eu ficava sempre na residencial.

Recorda-se quando foi chamado pela primeira vez à equipa principal?
Recordo. O Bölöni deu-me a primeira oportunidade, mas o primeiro a chamar-me à equipa principal foi o Fernando Mendes. Porque houve uma transição quando saiu o Augusto Inácio. Como o Fernando Mendes me conhecia de Moçambique, disse logo que eu ia treinar com a equipa principal. Foi aí que alguns miúdos da formação foram ter comigo a perguntar como era, incluindo o próprio Cristiano Ronaldo. Eu jogava com a equipa B, mas, passado algum tempo, eu, o Ronaldo, que deu um salto quase que nem passou pela equipa B, o Quaresma, Hugo Viana, Carlos Martins, entre outros, fizemos a pré-época com o Bölöni. Foi uma pré-época muito dura, devo dizer.

Em que aspecto?
Nunca tinha treinado tanto na vida como trenei com Bölöni. Havia uma pressão muito grande. Dos mais velhos, alguns aguentavam, outros não, depois ele dizia sempre para nós: “Vocês mais novos têm de aguentar”. Às vezes treinávamos três vezes por dia. Nunca fiz uma pré-época tão dura. A maior parte dos jogadores queixava-se também que nunca tinham treinado tanto assim. Lembro-me de, numa reunião, o Sá Pinto defender-nos. Ele disse que era fácil os mais velhos aguentarem até porque já têm muitas pré-épocas nas pernas, agora os mais novos estavam a chegar, era difícil para eles. Só que, engraçado, no meio dos mais novos, o Ronaldo aguentava (risos).

Quando chegou ao balneário da equipa principal, fizeram-lhe muitas partidas?
A primeira vez foi engraçado porque tinha lá o Nélson e o Beto. Eram os jogadores mais extrovertidos que tinham algumas brincadeiras de balneário, mas aquilo era para tentar pôr-me à vontade.

Que tipo de brincadeiras?
(Risos) O Nelson muitas das vezes, na hora do banho, deixava cair o sabonete e dizia “Paíto apanha lá o sabonete”. Eu inocente, baixava-me para apanhar (risos). Ele depois dizia: “Foi assim que a Alemanha perdeu a guerra. Abre o olho miúdo” (risos). Depois fiquei com receio das coisas, porque ele muitas vezes punha champô nos sapatos. Eu chegava, queria calçar-me e estava cheia de champô. Com vergonha só ficava assim a olhar para os lados, porque eu não podia nem perguntar. Uma vez cheguei e tinha as cuecas todas cortadas. Apanhei uma geração fantástica. Com o Barbosa também tenho uma história.

Conte.
Eu a chegar de Moçambique, o meu primeiro, segundo treino na equipa principal. Em Moçambique temos o hábito de chamar tio a todos os que são mais velhos. Eu comecei “tio Beto”, “tio Barbosa”, “tio Jorge”, a pedir a bola. (Risos). O Pedro Barbosa parou o treino, chamou-me: “Anda cá ó miúdo. Que brincadeira é essa de tio Barbosa? Aqui não há tio Barbosa, aqui é o Barbosa, caralho! Que é isso de tio, tio, tio. Tio é lá em Moçambique”. (Risos) Isso para mim só teve graça muitos anos depois, quando percebi (risos).

Chegou a ser campeão com o Bölöni?
Falhei, porque eu fui convocado umas quatro vezes, incluindo até o jogo no Dragão, mas nesse ano só joguei para a Taça, não joguei para o campeonato. Lembro de um jogo no Estádio José de Alvalade, que foi uma grande oportunidade que passou. Mas de qualquer das formas senti-me campeão porque eu fazia parte desse mesmo plantel. Num jogo, acho que contra o Felgueiras, o Bölöni mandou-me aquecer. Quando ele me chamou para entrar, no meio campo, o Paulo Bento levanta a mão e pede para sair, porque estava a sentir uma dor. Aí, a minha entrada foi congelada e meteram o Custódio. E o Custódio foi campeão. Eu tinha sido muitas vezes convocado, inclusivamente tinha jogado para a Taça, mas o Custódio teve essa oportunidade e foi campeão. Claro que fiquei triste.

Na época seguinte volta à equipa B.
Mas eu treinava sempre com a equipa principal, jogava era na B.

Quando se muda pela primeira vez para a sua casa?
Foi para a margem sul na zona da Amora. O dinheiro não dava para arranjar casa em Lisboa, porque era caro. Apareceu o senhor Carlos, que tinha um apartamento à venda, eu disse que não tinha dinheiro e ele disse que podia arrendar e que, no dia em que tivesse dinheiro e quisesse comprar, ele abatia todo o dinheiro das rendas no valor da compra. Foi uma oportunidade e foi aí que me mudei para a Amora. Como treinávamos em Alcochete, até era mais fácil para mim.

Foi viver sozinho?
Inicialmente sim, mas não demorou, porque depois fui viver com a minha mulher.

Fale-nos da sua mulher, conte como se conheceram.
Ela chama-se Edna e é prima do Rui Lopes, que era guineense. Ela foi uma vez visitar o miúdo e, quando a vi, gostei dela. Quando ela foi embora, fiquei a falar com o miúdo, disse que tinha gostado dela e pedi-lhe o contacto. Lá me deu o contacto, fomos falando, falando. Em 2003 ela ficou grávida. E pensei: se ela está grávida tem que viver comigo. E foi aí que saiu a minha primeira sorte, o primogénito, o Edson.

Assistiu ao parto dele?
Assisti. Estava em casa quando ela começou a ter os primeiros sinais de parto. Entrei logo em pânico. Também era novo, tinha 21 anos. Liguei à ambulância e fomos para o Garcia da Orta, em Almada. Chegamos lá às 20h e o Edson só nasceu à uma da manhã. Quando me chamaram aquilo foi terrível. Não consegui ficar até ao fim. Tiveram logo que me puxar porque as enfermeiras perceberam que eu já estava a perder a força. Deixaram-me na varanda (risos). Eu estava a ficar tonto porque é uma emoção muito grande. Aquele processo não é para todos.

Na época vem o Fernando Santos. Como é que foi?
Nós estávamos a fazer estágio na Academia. Ficámos uma semana na Academia. Eles ligavam para os quartos para irmos tomar o pequeno almoço, só que nesse dia, não sei o que é que aconteceu, o despertador não tocou e fiquei na lista de jogadores que se atrasaram o pequeno almoço. Quando chegámos ao pequeno almoço, eu o Moutinho, o Sá Pinto…O Sá Pinto começou a tentar justificar o porquê de termos chegado atrasados, mas aquilo ali com o Fernando Santos, meu Deus do céu. O senhor Fernando Santos gosta de dar duras. Ao longo da época a gente chamávamos ao mister o “senhor das duras”. Porque de facto, ele é bravo. Sá Pinto também tem aquele perfil… Aquilo foi logo de manhã no 1.º dia de estágio, eu pensei meu Deus, ai, ai, ai, isto aqui vai pegar fogo. Mas graças a Deus correu bem. O Fernando Santos foi fantástico. É um senhor. E não era fácil para mim, porque tinha uma concorrência muito forte. Mas eu sempre trabalhei bem, sempre gostei de trabalhar nos treinos.

Jogou muitas vezes?
Fui muitas vezes convocado pelo Fernando Santos, porque na altura só pagavam o prémio a todos os jogadores convocados. Não importa se jogava ou não. E ele fazia de propósito. A convocatória era normalmente de 18 e ele houve uma altura em que convocada 19. Mas chegava lá e punha-me na bancada. Era só para poder ganhar o prémio. Aquilo era uma forma de premiar por aquilo que eu fazia durante a semana. Mesmo sem jogar eu treinava sempre nos limites. E o futebol é assim. Porque até os que jogam precisam dos que não jogam para poder treinar. Treinando forte os outros têm que ficar fortes. Acho que ele percebeu isso em mim porque eu treinava sempre nos limites. Não é fácil, normalmente os jogadores que não jogam ficam sempre amuados, não estão motivados. Eu fazia diferente. Porque só o facto de estar a treinar no Sporting para mim já era uma grande vitória na vida. Depois fomos fazer uma digressão aos EUA, e lembro-me do Fernando Santos dizer: “Paíto, o próximo ano é o teu ano. Tu é que vais jogar”. Só que, infelizmente, ele não continuou.

E vem o Peseiro.
Eu não gosto muito de falar de sorte, mas ao Peseiro, devo dizer, acho que talvez tenha faltado sorte no futebol. Porque ao nível de treino, confesso que, se não é o melhor, está na lista, mesmo. É um treinador fantástico. Ele conseguia, tanto no treino como a jogar, tirar o máximo de nós. Tinha era um problema, que alguns jogadores não gostavam, era muito amigo dos jogadores e tentava pôr os jogadores à vontade. Não era autoritário, utilizava a política maior liberdade, maior responsabilidade. Mas os jogadores muitas vezes gostam de ter treinadores, desculpe a expressão, sacanas. O Fernando Santos era autoritário, eu é que mando aqui, tens de fazer aquilo que eu digo ou então põe-te a andar. Já o Peseiro é diferente, é mais passivo, é mais paciente. Mas a verdade é que tudo o que ele dizia que os adversários iam fazer, faziam, o que nós tínhamos de fazer para ganhar esse adversário e batia certo. Era fantástico. Tanto que nesse ano jogávamos que nos fartávamos. E perdemos numa semana.

Uma semana muito pesada.
Obviamente, há muita gente que não se esquece daquilo que aconteceu e como perdemos em casa perante o nosso público. Mas houve muita coisa que aconteceu naquela semana, não tivemos uma semana fácil. Depois, tivemos que ficar todos na Academia, houve ali um desentendimento com a direção por causa dos prémios. Porque eles tinham prometido uma coisa e à última da hora disseram que não ia ser assim, a dois, três dias do jogo. Não acho isso uma coisa normal. Tanto que, depois, tivemos de jogar sem prémio de jogo. Não vou dizer que perdemos por causa disso, mas são coisas que mexem sempre com a cabeça dos jogadores. Ainda para mais perante uma final europeia daquela dimensão. Acho que a intervenção da direção tinha de ser diferente, ainda reforçar aquilo que já estava estipulado, porque aquilo acabou por abanar um bocadinho o espírito do grupo.

Mas é nessa época que o Paíto faz um golo que lhe marca a carreira. Em que faz uma cueca ao Luisão.
(Risos) É verdade. Há que enaltecer a forma como apareci ali. É uma das coisas que só vim perceber mais à frente. Que afinal de contas o mister Peseiro queria-me pôr naquele jogo, mas ele não tinha certeza se eu estava preparado ou não. Porque não é todos os dias que jogas no Estádio da Luz, cheio, há sempre uma tremideira. Ainda mais num um miúdo que não estava habituado. Mas eu acho que sempre estive preparado para esse tipo de jogo, porque eu trabalhava bem. Na semana que antecedeu esse jogo, o adjunto do mister Peseiro, o Eduardinho, num tom de brincadeira, num meinho também com o mister Caixinha, atira-me isto: “Oh Paíto, esse jogo no Estádio da Luz cheio, imagina tu a jogar ali perante aquele público, como é que era?”. “Fogo, mister arrebentava-os todos, estou pronto. Só o fato de entrar ali já é uma motivação”. Mostrei que estava pronto, mas longe de mim imaginar que podiam me lançar ali. Ainda bem que só me disse que ia jogar no dia do jogo, porque se me dissesse antes se calhar tinha ficado uns dias sem dormir. Mas foi no dia, quando ele manda lá estar mais cedo. e vejo a convocatória, “Pau! É hoje, aqui já não tenho volta” (risos). Comecei a roer as unhas no autocarro, até chegar ao estádio da Luz. Não falava com ninguém. Confesso que estava nervoso, o que é normal. Só que fisicamente eu estava muito bem, sentia-me bem. Conhecia quase todos os adversários, não tinha medo deles, mas ali a pessoa pensa: “Será que a equipa vai responder?” Porque, quando a equipa não responde, a responsabilidade acaba sempre por cair naqueles que não são habitualmente titulares. Esse era meu único receio. Mas quando dei o primeiro toque na bola, aí já foi tudo natural, tudo fluiu.

Pode descrever esse lance do golo?
Eu estava fresco e um jogador fresco consegue raciocinar melhor, foi o que aconteceu ali. Mas neste tipo de jogos não existe cansaço possível. Lembro-me de ter feito um desarme ao Carlitos e comecei por aí fora, porque a equipa do Benfica estava quase toda balanceada para o ataque e eles estavam a tentar levar o jogo para prolongamento. Quando fiquei com a bola, pensei: “É agora, vou para a frente”. E quando vi o João Pereira, disse, este aqui já tem amarelo o que eu tenho de fazer é só meter a bola à frente, ele não pode fazer falta porque se o fizer vai ser expulso. Eu meti a bola à frente e continuei. Só que é engraçado, porque quando chego quase no bico da área, levanto a cabeça, e eu queria cruzar para o Liedson, só que vejo Liedson no meio de dois centrais. Ele estava mais por trás do Alcides e pensei: “Não, não posso cruzar essa bola”. Continuei, dei um passo para a frente e aparece o Luisão. Ali a ideia era sempre meter a bola à frente. Só que do jeito que ele veio, assustou-me, uau, eu só queria passar por ele, não importa como. E quando faço uma simulação ele abriu um bocadinho as pernas e eu, olha, nem mais. Fiz a cueca. Já depois de passar não pensei outra coisa, seja o que Deus quiser, aqui já não há mais nada a fazer, só tenho de chutar para a baliza.

Porque é que os jogadores normalmente têm receio de fazer “cuecas”? É por respeito? Por medo de errar?
(Risos) Temos vergonha. É bonito de se ver, mas para quem leva não é bonito, não é? É meio humilhante.

Então por isso evitam fazer?
Nós evitamos levar (risos), porque ninguém gosta de levar. Já fazer, quem nos dera termos a capacidade de fazer uma coisa dessas por jogo. Talvez isso esteja ao nível dos Ronaldinhos e Neymars que não têm receio, podem fazer duas três vezes e se sair mal pouca gente vai falar porque tem feito, sai bem e ganha milhões.

Mas nunca se coibiu de fazer por respeito aos adversários?
Se sai bem todo o mundo aplaude, mas se sai mal e se for um miúdo é mais complicado. Porque quando não sai as pessoas levam aquilo como se o jogador estivesse a brincar, não é responsável. Mesmo um penalti à Panenka, se sai, tudo bem, mas se não sai ninguém te perdoa. Se em vez de passares a bola estás a tentar fazer uma cueca e perdes a bola, imagina que dá contra ataque e há golo. Na próxima semana estás no banco de certeza (risos).

A época seguinte ainda começa no Sporting mas acaba emprestado ao V. Guimarães. O que aconteceu?
Quem começou com isso foi o Peseiro. Depois daquela época fantástica, vim a Moçambique de férias e comecei a ler nos jornais que Paíto ia ser emprestado, isto e aquilo. Pensei: justamente agora que fiquei esse tempo todo à espera que Rui jorge pendurasse as botas para eu poder dar continuidade… Porque eu estava na sombra do Rui Jorge, mas sentia-me preparado e capaz. Justamente nesse momento é que estão a dizer-me que vou ser emprestado. Na altura não me pronunciei, cheguei a Portugal e dei uma entrevista em que disse: “Eu tenho contrato com o Sporting e é aqui que vou ficar. O Sporting ainda não falou comigo”. Mas comecei a perceber que o mister Peseiro foi contratar o Edson, que vinha do U. Leiria, onde tinha feito uma grande época.

Sentiu que estava a mais?
Não há problema que apareça outros jogadores, é bom, mas eu esperava ser aposta do Sporting. Aí já começou a “guerra”. Eu não jogava, não ganhava muito na altura e já tinha um filho, e o Sporting veio dizer-me: “Paíto tens que renovar e ao renovar tu vais ser a nossa aposta”. Eu disse Ok, qual é o ordenado? A proposta que o Sporting me apresenta é a mesma coisa que dizer: “Podes ir, aqui não fazes falta”. Foi mais ou menos o que eu percebi. O meu empresário disse para não me preocupar que íamos ter uma solução.

Quem era o seu empresário?
O Jorge Mendes. Ele disse que o importante era jogar. Eu não estava a pedir muito, eu não queria muito, eu só queria um valor em que se chegasse ao final do mês e, se eventualmente o Sporting se atrasasse a pagar uma semana, eu podia aguentar-me. Porque nesse tempo todo eu vivi assim, bastava o Sporting atrasar uma semana e eu já tinha de pedir dinheiro emprestado, porque não chegava. Eu disse: “Pelo amor de Deus, aumente um bocadinho o ordenado. Para eu também sentir que vocês querem que eu continue, que vocês estão a contar comigo”. E percebi que o Sporting só me queria manter ali, só me queria entreter. Foi como eu me senti. Tanto que depois fiquei sem jogar.

Entretanto o Peseiro sai.
Quando o Peseiro sai, voltei a ganhar um bocadinho de ânimo. Mas quem vem para meu azar: o Paulo Bento. Teoricamente, nós, que tínhamos jogado com ele, empolgámo-nos porque nos conhecia. Mas não foi assim. Quase todos os que tinham jogado com ele, ele não os queria ver ali (risos). Começou com Sá Pinto, Barbosa, etc. Um por um foram saindo. E eu também. Ele chamou-me, falou comigo em outubro, novembro: “Paíto eu conheço-te, mas tens de perceber que agora a minha aposta, e a aposta da direção, para defesa esquerdo é o André Marques. Temos o Edson que custou muito dinheiro ao Sporting. Se não jogar o André Marques, joga ele”. E depois ainda diz: “Depois do André Marques está o Rodrigo Tello e depois do Tello é que estás tu” (risos). Ou seja, tens três à frente de ti. Foi a mesma coisa que dizer “estás a sobrar”. Eu só tinha mais seis meses de contrato, ficar um ano sem jogar… Foi aí que comecei a falar com o empresário para poder sair. Foi assim que aconteceu e fui para o Vitória de Guimarães.

Foi para Guimarães com a família?
Fui porque o filho não estava na escola, era pequeno ainda. Fui com eles. Guimarães é uma cidade fantástica. Depois do Sporting foi onde gostei mais de jogar. Amo aqueles adeptos porque fazem meu estilo. Porque nesse ano descemos de divisão, mas eu sempre andei de cabeça levantada. E eles só diziam: “Paíto nós só queríamos ter mais um como tu aqui que nós não descíamos de divisão”. Mas esse ano o Vitória de Guimarães tinha uma equipa fabulosa, foi uma equipa feita para atacar a Liga Europa, e não se percebeu o que aconteceu ali, começaram com o Pacheco, depois eu estive com o Vítor Pontes, que é um senhor do futebol, tínhamos um plantel de luxo, só que as coisas não correram bem.

Como vai parar a Espanha a seguir?
Em Guimarães faço uma boa época, em 18 jogos, joguei 16. Em 16 jogos, fui oito vezes o melhor em campo da parte do V. Guimarães. Sempre a um bom nível, porque estava com fome de jogar. Eu não ia para Espanha, ia para Inglaterra, tinha vários clubes interessados, já não me recordo bem dos clubes, só que o Jorge Mendes mais à frente descobriu que eu não podia entrar na Inglaterra, porque não era comunitário e a seleção de Moçambique não constava das 100 melhores seleções do mundo. E aí é que depois surge a virada para Espanha.

Mas não fica a jogar no Maiorca.
Quando chego a Maiorca nesse ano, o Maiorca dos Eto’s e companhia, faltava-me um ano em Portugal para poder ser comunitário. O Maiorca tinha um plantel invejável e a eles também lhes interessava que eu fosse comunitário. Como faltava um ano, eles preferiram mandar-me emprestado para Braga.

Quem apanha no SC Braga como treinador?
Comecei com o Carvalhal. Foi um ano difícil também do Braga, tinha acabado de sair o prof. Jesualdo. Depois entrou o Rogério Gonçalves e depois Jorge Costa.

Dos três com quem se identificou mais?
Gostei da forma de trabalhar do Carvalhal. É mais moderno. Apesar de não ter jogado muito. Acho que depois houve um problema qualquer dos contratos entre os clubes, das percentagens. Sei é que acaba sempre por prejudicar os jogadores. Houve um acordo que não foi celebrado, uma das partes estava a exigir algo, a outra não quis ceder e o prejudicado é sempre o jogador. Foi isso que aconteceu. Acabei por jogar pouco em Braga.

Foi viver para Braga com a família?
Sim, sempre às costas.

A aventura pela Suíça, primeiro no Sion, surge a seguir. Como?
Eu estava relaxado no Algarve, com contrato de três anos com o Maiorca, tranquilo, à espera que o telefone tocasse. Mas depois comecei a ver, mas parece que os clubes já estão a começar a treinar. O que é que se passa? Não me dizem nada de quando é que tenho de me apresentar? E lá fiquei. De repente o Jorge Mendes está a ligar-me e diz e desculpe a expressão, mas foi mesmo assim que ele disse: “Eh pá, estás fodido, estás sem trabalho”. “Eu?! Como?”. Foi aí que ele explicou que o contrato que tinha assinado com o Maiorca tinha uma cláusula que, se chegasse dia 10 ou 20 de julho sem ser comunitário ainda, o Maiorca podia rescindir contrato comigo sem ter de me indemnizar. E com a agravante de eu não ter jogado muito em Braga, eles ficaram desinteressados. Como eles tinham aquela cláusula que eu nem vi na altura, foi aí que…

Nessa altura o que lhe passou pela cabeça? Chateou-se com o Jorge Mendes?
Lógico. Porque acho eu que ele podia ter salvaguardado a minha parte. Mas percebi que ele também estava confiante que até àquela data iríamos conseguir o passaporte comunitário. Não foi o que aconteceu e o prejudicado, como sempre, é o jogador. Foi aí que começou a minha lenga-lenga. Ele começou a ver onde é que podia me encaixar. Em Portugal já estava tudo fechado, Espanha nem pensar, e começou a ver quais os clubes que começavam a época mais tarde. Foi aí que surgiu o Sion. Ele disse-me para ir, que jogava só uma época e depois víamos o que acontecia.

Quando lhe falou na Suíça e no Sion, qual foi a sua reação?
Não tinha noção de nada. Claro, desempregado, qualquer sítio para mim vale. Só queria era jogar obviamente. Mas não fiquei satisfeito porque, mentalmente, estou a sair de um campeonato espanhol, La Liga, para entrar num campeonato totalmente desconhecido. Aquilo foi um bocadinho um choque para mim. Mas lá fui.

Como foi o primeiro embate?
Eles começaram a falar que ali era frio, mas fiquei na dúvida porque fui na atura do verão e estava uma boa temperatura. Mas eu estava curioso porque queria ver neve. Lembro-me de estar sempre a chatear o João Manuel Pinto e o Kali, um angolano, sempre a perguntar-lhes “Quando é que a neve vai cair?” (risos). Eu nunca tinha visto neve na vida, estava curioso. Ia ser a minha primeira experiência, eu ficava ansioso. Quanto à experiência de jogar ali, é diferente, a maneira de estar no futebol é diferente daquela a que estava habituado. Mas tinha de me aguentar.

Sabia francês ou inglês?
Nada, nada. O que me ajudou ali, e ao mesmo tempo não ajudou, foi o facto de ter o João Manuel Pinto que falava português, o Kali que falava português e tinha um colombiano, um argentino e o Beto, brasileiro. Ou seja, por um lado tinha quem me ajudava a perceber as coisas, mas por outro lado fez com que eu demorasse mais a “pescar” o francês. Com a agravante de haver muitos restaurantes de portugueses, há uma comunidade emigrante muito grande ali. A qualquer sítio que fosse sabia que ia aparecer um português para me ajudar. Acabou por dificultar a minha aprendizagem do francês.

A que é que foi mais difícil de se habituar na Suíça?
Ao frio. Há aquela parte de um bocadinho de solidão, porque em Portugal temos ainda aquele calor de África, digamos assim. Os próprios suíços são frios por natureza, não convivem. Têm tudo e ao mesmo tempo parece que não têm nada.

A mulher e filho adaptaram-se bem à Suíça?
Eles praticamente não faziam nada, ficavam em casa. Depois meu filho começou a ir à escola, mas as crianças adaptam-se fácil e rápido, melhor do que nós. Ele começou a falar francês melhor que eu. Ele passou a ser o nosso professor em casa.

Nesses três anos no Sion, o que mais o marcou?
Foi ter um presidente, desculpa a força da expressão, meio maluquinho. O Constantin conseguiu ter 14 treinadores numa época. 14. Foi uma coisa que nunca pensei que pudesse viver, mas vivi. E chegou a mandar embora o treinador e ser ele próprio o treinador da equipa.

Como é que um jogador se adapta a 14 formas diferentes de trabalhar?
É maluquice. É maluquice dele. Ele é conhecido na Suíça porque é um grande empresário, o clube é dele. Alguns dos treinadores não chegaram nem a fazer um jogo porque ele dizia que os treinos deles não eram bons e mandava embora (risos). Depois, claro, ninguém lhe podia dizer nada.

Como se dá a passagem para o Neuchâtel Xamax?
Eu termino contrato com o Sion. A minha ideia era sair da Suíça, queria ver outras coisas. O Sion apresentou-me uma proposta de continuidade e eu queria mais. Além de que queria ver outros sítios, porque acho que tinha condições para estar noutros campeonatos. O que acontece no futebol é que tu fazes planos, queres muita coisa, mas não é bem assim que as coisas se passam. Há muita coisa por trás que nem depende de ti. E quando decido ir para fora, um dos diretores desportivos, que tinha estado comigo no Sion, vai para o Neuchatel. Nesse processo de andar à procura de clube, já não estava com o Jorge Mendes porque o Jorge colocou-me lá e pronto “Adeus Paíto”. Arranjei outros, e foi quando esse diretor desportivo diz para eu ir para o Neuchatel, que contava comigo, disse que ia ter um contrato um bocadinho melhorado, porque ele sabia quanto é que eu ganhava no Sion. E no meio de tudo isso, não apareceu ninguém também, e como era na Suíça também, que já conhecia, decidi ficar por ali.

Correu melhor do que no Sion?
No primeiro ano foi razoável e, no ano a seguir, aparece um tchetcheno, um russo, que compra o clube. Tínhamos um bom plantel, porque ele foi comprar os melhores jogadores que havia no mercado e inclusivé mandou vir jogadores de Espanha, foi buscar o capitão do Valência, David Navarro, foi buscar muitos bons jogadores. Começámos bem, as coisas estavam a acontecer só que chegou a uma altura – e aí acho que tem a ver com a justiça da Suíça – eles começaram a duvidar do dinheiro que ele tinha e bloquearam as contas do clube e acabaram com o clube. Assim mesmo: “Senhores, a partir de hoje vocês estão livres”. A meio da época. Estava a Edna à espera do terceiro filho, o Júnior. Porque o segundo que é o Edmar, nasceu no Sion, em 2007.

Também assistiu ao parto ou já não quis?
Aí já não (risos). Quem assistiu foi a mulher do Kali que jogava comigo, porque já vínhamos falando e eu já tinha dito que só em último caso mesmo, se não tiver ninguém, é que eu ia lá. Foi bom mas não quero repetir (risos)..

Voltemos à história do Neuchatel.
O clube acaba, o clube é que pagava a casa onde estávamos e a renda não era pouca. Estamos a falar de €3 mil, mais ou menos. Depois a senhoria andou atrás de mim, aquilo foi uma confusão e a minha mulher já não podia viajar porque já só faltavam dois meses para ter o bebé. Foi um sufoco. Comecei a procurar clube, a bater às portas aqui e mais à frente apareceu o Augusto Inácio que me ligou para eu ir para o FC Vaslui, da Roménia.

A família também vai para a Roménia?
Na Roménia só ia ficar por seis meses e por isso eles foram para Portugal.

Que tal foi a experiência na Roménia?
(Risos) Só visto. Fui parar numa cidade que se chama Vaslui. Meu Deus. Foi terrível. Aquilo é inexplicável. São aquelas coisas que, contando aqui em Moçambique que existe um país europeu, uma cidade europeia assim, as pessoas aqui não acreditam.

Explique lá.
É uma cidade onde não há nada, não se passa nada, muita pobreza. Não tens absolutamente nada, não tens shopping, vês burros na rua. Aquilo foi muito estranho. Muitos ciganos. É complicado. Só que, em compensação, depois tens Bucareste, uau, uma cidade fantástica. Vaslui é uma cidade pequena onde todo o mundo se conhece, só tens um banco, não tens shopping, só tens um restaurante, e se lá fores só vais encontrares um dos teus colegas porque ninguém ali frequenta esse restaurante, porque não há ninguém. Fiquei num hotel que era do dono do clube, estava lá com os treinadores todos, porque eles também não sentiram necessidade de arranjar um apartamento. Ficámos ali no hotel. Mas no hotel de cinco, seis andares, onde não existem hóspedes, só nós, porque ninguém vai lá. Os únicos que podem aparecer é quando jogas em casa e tens de ficar ali com o adversário. É muito estranho aquele país. As pessoas não fazem anda de fato. Vejo pessoas jovens na rua que estão a fazer absolutamente nada, eles ficam à espera que tu lhes dês qualquer coisa, um trabalhito qualquer.

Apanhou algum susto?
Um susto a nível de ameaças e bandidos, não, porque de certa forma também tínhamos privilégios. eles olhavam para nós com admiração e acarinhavam-nos porque viam que nós éramos uma mais valia para a cidade. Porque nós comprávamos fruta, porque tínhamos ordenado. O que sempre acontecia comigo, quando às vezes ia dar uma volta à volta do hotel, é que encontrava senhoras que olhavam para mim e começavam a rir, algumas até ganhavam coragem e perguntavam se me podiam tocar. Depois confessavam que era porque nunca tinham visto de perto um africano. E compreendo.

Foram seis meses para esquecer?
Não, porque a nível desportivo conseguimos a melhor classificação de sempre do clube. Perdemos o campeonato por um ponto. E quando cheguei o clube estava em 7.º lugar. foi muito bom porque foi uma outra experiência, um futebol diferente. Mas é muito frio também, como na Suíça, ou pior porque ali as condições não são as mesmas que na Suíça.

Só tinha assinado por seis meses?
Sim. Mas logo logo o presidente quis que eu ficasse mais tempo. Mas o que é que balançou? Não é um país que dê para estar. Depois, eu queria escolher um país para onde eu pudesse levar a família e ali era impossível. Não tinha escola internacional, ia levar os meus filhos para aprender romeno? Depois o que é que eles iam fazer com o romeno? Se arranjasse um clube em Bucareste, aí sim, mas ali não queria ficar. Depois é aquela situação: a Roménia é um país que tinha muitas mulheres, não que eu me interessasse, mas…Ou seja, era demais, era demais. Tu estás no hotel, se elas conseguirem furar no hotel de repente podem estar a bater-te à porta do quarto. Tinha colegas que viviam em casas e praticamente não dormiam. E eu disse: aqui definitivamente não dá para ficar. Tu resistes, resistes e chega uma altura em que vais ter de ceder, depois ficas igual aos outros e desvias-te daquilo que é o teu foco. Foi por tudo isto que disse que não podia continuar.

Foi para Portugal?
Fui para Portugal com promessas de Bucareste, de equipas da Turquia, de vários clubes. Fico à espera, à espera e o telefone que nunca mais toca. E não tocou. não tocou durante seis meses. Conheci não sei quantos empresários na vida, isto e aquilo e nada. Comecei a pensar: meu Deus o que vai ser da minha vida. Eu treinava em casa, mas não era a mesma coisa. Até que, em dezembro, ligam a dizer que havia um clube o Skoda Xanthi da Grécia, onde havia possibilidade. Aí nem que me dissessem Cazaquistão ou no fim do mundo, eu ia, porque eu queria jogar. E mesmo assim eu ainda acreditava que pudesse dar no futebol. Porque de facto sentia que estava bem, graças a Deus nunca tinha sido operado, nunca tive nenhuma lesão grave. E fui para lá em teste, coisa que sempre recusei, teste. Mas fui porque percebi que não tinha outra hipótese. Seis meses sem jogar ninguém te conhece, tens que lá ir, tens que aceitar. Fiquei duas semanas e disseram OK.

Assinou por quanto tempo?
Fizeram primeiro um contrato de seis meses e depois logo se via. Joguei os seis meses. A família ficou em Portugal, o Edson já estava na escola, e Xanthi é uma cidade que não tem absolutamente nada. Não fazia sentido eles irem. Ao fim dos seis meses eles quiseram renovar mais um ano. Não tinha escolha, aceitei. E essa época a nível coletivo não correu muito bem. O presidente depois não renovou o contrato e voltei para Portugal. Ainda queria jogar. Apareceram alguns clubes da II divisão, mas dinheiro que era bom, nada. Não pagavam nada, aquilo que podiam pagar não chegava para fazer face às despesas mensais. Foi aí que comecei a ponderar pendurar as chuteiras e que tinha de ir trabalhar. Fiquei em casa quase um ano.

Viveu de quê nessa altura? Das economias?
Vivia das economias e não foi fácil. Mesmo assim nesse tempo de espera eu estava convicto de que a qualquer momento pudesse acontecer algum clube aparecer. Mas não aconteceu. Foi aí que disse, bom: “Eu já não consigo arranjar trabalho em Portugal, vou para Moçambique”. Surgiu a possibilidade de ir para o Maxaquene, o clube onde comecei a minha carreira. alguns clubes em Moçambique queriam-me, mas eu sempre disse que no dia em que voltasse a Moçambique queria terminar a carreira no Maxaquene. E a ideia nem era terminar a carreira era dar continuidade à carreira. E vim para Moçambique. Joguei uma época, ganhamos taça do torneio de abertura, fomos à final, vencidos, das duas taças, e no campeonato ficamos em 4.º lugar. Mas depois daquilo que vi ao longo do ano… Encontrei o clube pior do que havia deixado, sem campo para jogar, sem campo para treinar. Eu que sou apaixonado pelo treino e jogos, perdi tudo ali. Fizemos estágio na África do Sul. Ótimo. Quando voltámos não tínhamos nada, na semana a seguir liguei à minha mulher e disse: “Isto aqui não era aquilo que estava a pensar. Não vou aguentar”.

Pagaram-lhe?
Pagaram os primeiros três meses, mas depois não passou disso.

Ficou em Moçambique e a família em Portugal?
Sim. Nós não tínhamos nada, fiz a época toda só com uma camisola de jogo. Uma só. Só tínhamos um par de equipamento para a época toda. às vezes acabavas o treino e não tinhas sítio para tomar banho. No dia seguinte não sabias onde ias treinar. E tinha colegas a pedir dinheiro para apanhar autocarro, ou um €1, porque não tinham comida em casa. Essas coisas têm que mexer comigo. Depois, eles olhavam para mim: “Este aqui vem da Europa, ele está bem, vai ajudar-nos”. Mas obviamente não é assim, tenho família, também tenho as minhas coisas. E de facto perdi aquela vontade, tanto que terminei a época e disse para mim: “Foi bom, mas isto aqui definitivamente não é para continuar”.

Estava viver onde?
Na minha casa. Eu ao longo dos anos construí a minha casa aqui, com calma, perto da minha mãe.

Até aí não tinha pensado no seu futuro pós-carreira?
É tudo muito rápido. Uma das coisas que sempre disse, que podia ser um conselheiro para os jovens, principalmente moçambicanos. Eu dei conselhos a muita gente, alguns deles ainda me ligam a agradecer.

O que fez a seguir?
O que tentei fazer foi puxar a família para Moçambique. Porque é mais fácil recomeçar a vida aqui, é um país que tu conheces, com pequenos investimentos tu consegues viver, não tens aquele stress de teres que pagar a renda, estás em casa. Facilmente, conhecendo os sítios, tu consegues viver. Foi isso que eu pensei. Pedi-lhes que viessem todos. O meu filho mais velho começou a falar com a mãe e disse que não queria viver aqui. E voltámos a sentar-nos, conversámos e vimos que para o futuro das crianças… Isto é bom para os adultos, já percebemos, já sabemos o que é a vida, já para eles não iam ter as mesmas oportunidades aqui e já tinham amizades em Portugal.

O que aconteceu, o seu filho veio para Portugal?
Eles depois tiveram que sair. Primeiro, foram para Inglaterra porque tinha lá família. Ao início, a ideia até era voltar para a Suíça, mas depois não correu bem; quando chegaram a Inglaterra foi no momento do Brexit e aí não pensámos duas vezes, tiveram de voltar para Portugal, onde estão até agora. E eu continuei aqui em Moçambique.

A sua mulher empregou-se em Portugal?
Não, estamos a tentar fazer alguns negócios em Portugal, Moçambique.

Que tipo de negócios?
Mais roupa, e coisas do género, só para poder movimentar. Ela agora está com um projeto de abrir um salão, mas é um todo um processo, porque ela percebeu que tem de estar em Portugal. Já eu tinha que fazer escolha e decidi ficar em Moçambique, porque percebi que é onde posso continuar a vida pós-carreira. Não é uma situação fácil.

Mas quando deixou de jogar o que foi fazer para se sustentar?
No primeiro ano não foi fácil, porque eu queria fazer qualquer coisa a todo o custo. E confesso que senti alguma mágoa do povo moçambicano. Quando estamos fora temos outra visão e esperava ser bem recebido quando regressasse a Moçambique, mas a receção não foi tão calorosa como estava à espera. Estava à espera que as pessoas todas me pudessem oferecer trabalho. Nada. Ficaram só a olhar para mim. Comecei a bater à porta e nada. Senti que era mais acarinhado em Portugal do que em Moçambique. A receção dos amigos foi boa, mas dos dirigentes que estão à frente do nosso futebol não senti o mesmo, apesar de eu sentir que podia ser uma mais valia para o desporto moçambicano.

O que foi fazer então para ganhar dinheiro?
Eu depois comecei a criar alguns negócios, comecei com as lojas de conveniência e depois criei a minha empresa; agora tenho camiões cisterna de transporte de combustível. É isso que faço para poder aguentar-me. E, ultimamente, desde dezembro, como estava a apoiar a candidatura do Faizal Sidat, concorremos, ganhamos e agora sou o vice-presidente das seleções nacionais de Moçambique. Não foi fácil lá chegar de facto, mas eu já conhecia o Faizal, porque quando eu jogava ele é que era o presidente da federação, sempre tivemos uma boa relação. E agora, quando se voltou a candidatar, pensou em mim, ligou, não hesitei fui com ele e graças a Deus correu bem e agora há que trabalhar.

Numa entrevista disse que estava tirar o curso de treinador. Que nível tem?
Eu fiz uma formação aqui, mas a CAF não deu equivalência. Ainda pensei ir a Portugal fazer, depois não fui, mas tenho essa vontade de um dia treinar, mas não os seniores. Eu sou apaixonado pelos miúdos, acho que me identifico mais com a rapaziada dos 16, 17 anos, aquela idade da transição em que vai dar ou não vai dar. Acho que me encaixo perfeitamente nisso. Mas agora tenho de pôr isso de lado e tenho que me concentrar nas minhas novas funções. Quem sabe no futuro.

O seu filho mais velho, o Edson, joga futebol.
Sim, saiu agora do Belenenses e foi para o Torreense.

Revê-se nele?
Dá-me pena eu não estar com ele mais tempo. mas quem o conhece diz que temos características diferentes, até porque ele é avançado e eu não. Ele tem muita vontade, mas se tiver oportunidade não sei onde vai parar, mas espero que na I divisão. Mas o caminho é longo. Os outros filhos também jogam, estão numa escolinha perto de casa, em Odivelas.

De onde vem a alcunha Paíto já que seu nome próprio é Martinho?
Quando nasci, o meu avô materno disse que eu tinha de ser xará dele. “Se for um homem vai-se chamar Augusto”, como ele. Acontece que a minha mãe teve complicações no parto e apareceu um senhor que lhe deu boleia e que se chama Martinho. A minha mãe, depois do parto, não conseguia andar e naquela altura não havia transportes como hoje e apareceu aquele senhor num camião que se chama Martinho e que lhe deu boleia até a casa. Quando chegou a casa, a minha mãe não sabia como agradecer e depois o senhor disse: “Se não sabes como agradecer é só dares a esse filho o meu nome”. Já aí começou a guerra entre a minha mãe e o meu avô. Então o que eles fizeram? A minha mãe disse: “No registo eu vou pôr Martinho e aqui em casa nós vamos chamá-lo Augusto”. Mas em Moçambique como era falta de respeito a minha mãe chamar-me Augusto, porque era como se estivesse a faltar respeito ao próprio pai, começaram a dizer este aqui é como o nosso pai, só que é um pai pequeno; então ficou Paíto, pai pequeno. E até agora estou a lutar, porque quando me apresento às pessoas eu digo sou Martinho, porque já cresci. Mas as pessoa dizem: “Eh pá, aquele não é Paíto? Disse que era Martinho” (risos). Quero que as pessoas me tratem por Martinho porque já cresci e já sou pai grande. mas não consigo porque as pessoas têm o Paíto na língua.

Onde ganhou mais dinheiro na carreira?
Na Suíça. Em compensação também saia rápido (risos).

Tinha ídolos quando era pequeno?
Tinha, Roberto Carlos.

E superstições?
Nenhumas. A única coisa que fazia era nunca ia a um jogo sem antes falar com a minha mulher. Nunca. Falava com ela sempre.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Nunca fui de loucuras. Talvez uma carteira que tivesse comprado para a minha mulher porque não estava no meu orçamento, digamos assim. Aquilo que ganhava não dava para fazer aquilo mas sabes que o amor, a pessoa perde a cabeça.

Tem fé, já percebemos.
Sempre. Isso é que me move. Já fui mais vezes à igreja. Mas acredito que há alguma coisa muito forte na nossa vida. O que será essa coisa? É Deus. E tenho fé. Tanto que nas oportunidades perdidas digo de facto Deus não queria que fosse aquilo, não estava destinado.

Qual é clube de soho onde gostava de ter jogado?
São tantos (risos). Mas sempre me identifiquei com o campeonato inglês e sempre lutei para que pudesse jogar no Manchester United, no Liverpool, porque gosto do futebol inglês e acho que o futebol meu enquadra-se no campeonato inglês.

Tem algum hóbi?
Não. Gosto do dia a dia, estar com os amigos, conversar, mas não tenho assim uma coisa da qual não abdique. Gosto de viver vida, gosto de estar com a familia, com os amigos, uma conversa aqui outra acolá. Gosto de jogar à bola até agora com os amigos do meu bairro. Mesmo com uns quilinhos a mais é bom, porque já não há pressão, escolho a posição que quero.

Para terminar, não tem mais nenhuma história que possa partilhar?
Tenho muitas. Uma vez estava de estágio, no Sporting, e todos os jogadores temiam o mister Fernando Santos, ninguém gostava de se aproximar a ele por ele ser como ele é. Eu estava no quarto, tranquilo, e de repente o telefone toca, um dos colegas que suspeito ter sido o Carlos Martins ou o Beto, imitou a voz do Fernando Santos. “Alô, Paíto?”. “Sim?”. “Daqui é o mister Fernando Santos, faz favor de chegar aqui no meu quarto”. Eh pá, o mister quer falar comigo. E eu a pensar, acho que amanhã vou jogar de início. Lá fui eu a correr, já eram quase onze da noite. E, quando chego ao quarto, começo a bater à porta pa,pa,pa,pa,pa. Ele veio ter comigo: “O que é que se passa?”. Eu comecei a olhar para ele. “O que é que aconteceu?”. “O mister é que mandou chamar”. “Eu? Oh pá, vai mas é dormir”